Em setembro de 2007, Caxias do Sul recebeu o título de Capital Brasileira da Cultura, válido para o ano de 2008. O título foi conferido após uma sequência de investimentos na área, como a inauguração do Centro de Cultura Dr. Henrique Ordovás Filho, em 2001; a criação do Fundo Procultura, em 2003; e a revitalização do Largo da Estação, em 2006. O reconhecimento veio por meio de uma ONG homônima, com o apoio do Ministério da Cultura (MinC). Cenário totalmente oposto ao atual, onde os cortes orçamentários culminaram nas paralisações dos ensaios da Cia. de Dança, da Orquestra Municipal de Sopros e do Coro Municipal.
Para entender como saímos de uma cidade referência cultural até as incertezas atuais, será preciso entender o contexto histórico. Isso que vamos te explicar a partir de agora.
Antônio Feldmann era secretário municipal da Cultura, no ano de 2007. Ele lembra que para receber o destaque de Capital da Cultura, uma mobilização foi criada para levar ao Brasil tudo que era produzido por aqui. O apoio se mostrou em um documento com mais de 30 mil assinaturas.
Voltando no tempo, Feldmann recorda que mesmo com a honraria, houve resistência de uma parte da população sobre o mérito deste título. Segundo ele, houve um trabalho intenso para divulgação da efervescência cultural produzida em Caxias, para que esse pensamento fosse alterado.
O ex-secretário pontua que o papel não é apenas da Prefeitura divulgar e fomentar o engajamento na cultura, mas também a comunidade precisa valorizar e honrar o seu passado. Ele ressalta que o município necessita de uma classe artística unida, que faça reivindicações e pressione o poder público Isso força novos investimentos, já que a população não valoriza e não abraça o suficiente este setor.

Chiquinho Divilas traz a visão de artista sobre a cultura em Caxias do Sul. O rapper e doutor em Diversidade Cultural e Inclusão Social iniciou sua carreira em 1997 e destaca que, dos muitos artistas que começaram com ele, vários já deixaram o circuito. Ele ressalta que os projetos culturais precisam ter continuidade, independente de quem ocupe a cadeira de prefeito ou secretário. Ele cita como exemplo o caso de Medellín, que passou de um território marcado pela guerra para uma cidade com grandes expressões culturais, Esse processo levou 20 anos para acontecer. Chiquinho afirma que a falta de continuidade é prejudicial à classe artística.
Divilas avalia os cortes da Secretaria da Cultura em 2026 como “lamentáveis”. Ele tem a opinião de que uma cidade sem investimento em cultura, é um município que não quer crescer. Nas suas caminhadas por pequenas localidades, ele vê um entendimento melhor sobre a importância de manter espaços culturais. Chiquinho acredita que a cultura está diretamente ligada à redução nos índices de evasão escolar, depressão e, consequentemente, violência.
Um dos principais pontos culturais da cidade é o Centro de Cultura Dr. Henrique Ordovás Filho. Inaugurado em 2001, o complexo reúne sala de cinema, companhia de dança, orquestra e diferentes iniciativas que movimentam a produção cultural. O diretor do centro, Diego Lunelli, afirma que o Ordovás é um espaço agregador, sendo um polo de referência à classe artística e ao público geral.
Lunelli acredita que Caxias do Sul continua sendo uma capital da cultura, embora não nos mesmos moldes de 2008. Ele afirma que o município conta com uma variedade de produtores culturais e ressalta que existe uma diferença significativa entre os investimentos do poder público e do setor privado. Segundo Lunelli, a cidade jamais deixou de produzir e promover manifestações culturais.
O diretor do Centro de Cultura Ordovás afirma que a suspensão das atividades do Coro Municipal, da Orquestra Municipal de Sopros e da Cia. de Dança Municipal foi uma decisão difícil, mas necessária para controlar as contas do município e da Secretaria da Cultura. Ele destaca que a paralisação tem como objetivo garantir o retorno pleno das atividades no próximo ano e reforça que os grupos artísticos fazem parte da identidade da cidade e não deixam de existir.

A secretária da Cultura, Tatiane Frizzo reconhece as dificuldades econômicas enfrentadas pelo município. No dia 10 de agosto deste ano, a Câmara Municipal de Vereadores de Caxias do Sul devolveu R$ 750 mil do Legislativo para a Secretaria Municipal da Cultura, destinados ao pagamento dos 70 integrantes da Orquestra Municipal de Sopros, do Coro Municipal e da Cia. de Dança até o fim do ano.
Tatiane destaca que existe um projeto de reforma da Sala de Teatro Professor Valentim Lazzarotto, no Centro de Cultura Ordovás, e reforça que o espaço cultural segue como um ponto de encontro entre a comunidade e a cultura de Caxias do Sul. Ela afirma que a Secretaria mantém diversos programas que descentralizam as ações, levando projetos para diferentes bairros da cidade.
Quase duas décadas depois de ser reconhecida como Capital Brasileira da Cultura, Caxias do Sul enfrenta o desafio de manter viva a produção que ajudou a construir esse título. Entre cortes, paralisações e projetos de descentralização, artistas e gestores defendem que a cultura não depende apenas de recursos públicos, mas de continuidade e reconhecimento para permanecer como parte da identidade do município.



