Na sabedoria indígena, a terra é sinônimo de pertencimento. Ela não pertence ao homem, é o homem que pertence à terra. Mais do que chão, ela é memória viva: da ancestralidade, dos cantos, dos rituais, das pinturas, da dança e da cultura que resiste no tempo, especialmente neste 19 de abril, quando celebramos o Dia dos Povos Indígenas. É sobre esse chão que caminho para contar esta história.
Ao percorrermos cerca de 21 quilômetros a partir da área central de Caxias do Sul, o caminho nos leva ao distrito de Forqueta. É ali, em meio às vinícolas e às videiras, que a aldeia Kaingang, New Mãg, mantém viva a história, a cultura e a identidade. O povo celebrou a primeira festa da comunidade no último dia 11 de abril. Ao chegarmos lá, fomos muito bem recebidos pelo cacique da aldeia, Carlos Soares, que faz questão de mostrar à reportagem cada parte do local.


A aldeia é composta atualmente por oito famílias, que passaram a ocupar uma área total de 25 hectares após a necessidade de relocação promovida pelo governo federal, em função da duplicação da BR-386, em 2021. A obra atingiu parte do território que pertencia à comunidade indígena em Estrela, no Vale do Taquari. Carlos foi cacique por oito anos na aldeia de Estrela e passou a ocupar o cargo na atual aldeia mais recentemente, desde 9 de outubro de 2025, quando o irmão, Altair Soares, deixou o local e retornou à aldeia de origem. Atualmente, a comunidade conta com a liderança representada pelo cacique, pelo vice-cacique e pelos capitães.
A chegada foi marcada por dificuldades, mas o espaço foi estruturado com trabalho e apoio. Atualmente, a comunidade tem acesso à água e energia, e mantém a cultura por meio do artesanato e da agricultura, com alimentos como milho, feijão, batata-doce e o famoso fuá. Para o cacique, o cuidado com a terra é essencial para manter viva a tradição.

Cacique da aldeia, Carlos Soares
Em outro ponto da aldeia, há um espaço reservado para a futura escola. Hoje, as 12 crianças estudam em Farroupilha, mas a expectativa é de que as aulas passem a ocorrer na própria comunidade. A mudança também busca evitar situações de preconceito e fortalecer o ensino da cultura, da língua e dos costumes indígenas.

Local onde será instalada a escola da aldeia
A aldeia também conta com um espaço de Unidade Básica de Saúde, com uma casa destinada ao atendimento dos agentes de saúde do município e também da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), geralmente uma vez por semana. No local, a comunidade recebe receitas, medicamentos, avaliações de saúde e vacinação. Soares ressalta que, desde a chegada, o suporte na área foi essencial, com bom acolhimento por parte do município.

AÇÃO REALIZADA PELA SMS EM 2023

Ao lado da esposa, Sonia Soares, o cacique também destacou a importância do apoio familiar e aproveitou para reforçar a necessidade de combater a violência contra as mulheres, defendendo mais proteção e respeito.

Cacique Carlos Soares ao lado da esposa Sonia Soares
A festa da comunidade reuniu danças, comidas típicas, pinturas e artesanato, além da participação do poder público. Segundo o cacique, a celebração marca os cinco anos no local e busca aproximar a comunidade externa da cultura indígena.



Durante o evento, o capitão da aldeia, Ezequias da Rosa, ressaltou o trabalho coletivo no cuidado do espaço e na produção artesanal.

Capitão da aldeia, Ezequias da Rosa
A comunidade segue em crescimento e projeta ampliar a produção agrícola, com destaque para o plantio de laranjas, além da chegada de novas famílias. No Brasil, o Ministério dos Povos Indígenas, criado em 1º de janeiro de 2023, atua na proteção de direitos e na ampliação de políticas públicas. Já a Fundação Nacional dos Povos Indígenas, a Funai, é o principal órgão de garantia desses direitos, vinculada ao Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Em Caxias do Sul, o atendimento envolve esses órgãos e a Secretaria Especial de Saúde Indígena, ligada ao Ministério da Saúde. Atualmente, a comunidade Kaingang é acompanhada pelo CRAS Oeste. A gerente da unidade, Vanise Zacan, explica que a chegada da aldeia também impactou o município, que precisou adaptar e qualificar o atendimento aos povos indígenas.
Entre as principais dificuldades iniciais, ela destaca a questão da moradia, já que todas as famílias residiam em uma única casa. Com isso, houve articulação entre diferentes áreas, como habitação, saúde e assistência social. Hoje, o município oferece acompanhamento e incentiva a geração de renda.
Essa cultura que atravessa o tempo segue ensinando sobre coletividade e preservação. Nesse sentido, a coordenadora ressalta que o acompanhamento social, em diferentes áreas, representa um avanço para a cidade na valorização da diversidade dos povos indígenas, além da preservação de uma história que segue sendo contada.

Reunião na área da Habitação realizada em 2025
Por fim, o cacique deixa um ensinamento para que a cultura dos povos indígenas seja preservada e, acima de tudo, respeitada. Carlos Soares fala sobre os conflitos necessários para que as pessoas reflitam sobre o que realmente importa e reforça que as portas da aldeia estão abertas para quem quiser conhecer o local.
Mais do que uma visita, estar na aldeia é um convite à escuta. Um chamado para compreender que a história segue sendo escrita, vivida e transmitida de geração em geração, por meio dos costumes, da língua, dos saberes e da relação com a terra. É também um momento de reflexão sobre o quanto ainda precisamos aprender com esses povos, que resistem ao tempo, às mudanças e às dificuldades, sem renunciar à própria identidade.
Neste 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas, a reflexão que fica é sobre respeito, reconhecimento e preservação. Porque enquanto houver terra, memória e resistência, haverá também cultura e ensinamento. E ela segue viva, aqui bem perto de nós.










Imagens: Diego Pereira | Gabriel Noronha e Jair Junior – Rádio Caxias
