Aos seis anos de idade, Sophia Schleder Scapin entrou pela primeira vez em um Centro de Tradições Gaúchas (CTG). O que começou com a dança e as apresentações artísticas acabou se transformando em uma paixão pela cultura gaúcha e, anos mais tarde, em um título estadual.
Hoje, aos 13 anos, Sophia carrega a faixa de Terceira Prenda Mirim do Rio Grande do Sul. Uma conquista construída com muito estudo, dedicação e, principalmente, com o apoio da família.

“Eu acredito que a Sophia Schleder Scapin seja uma prenda que lá no início se encantou pela tradição gaúcha, decidiu que entraria numa entidade tradicionalista e que nunca imaginou o tanto que ela cresceria dentro da tradição.”
A primeira entidade foi o GTCN Velha Carreta, em Caxias do Sul. Em 2019, a família se mudou para Sorocaba, em São Paulo, e Sophia passou a integrar o CTG Fronteira Aberta. A experiência fez a jovem perceber que a tradição gaúcha também é forte fora do Rio Grande do Sul.
“Eu não imaginava que tinha Centro de Tradições Gaúchas fora do Estado. Então saber que a nossa tradição é preservada tão intensamente fora do Rio Grande do Sul é algo muito gratificante para mim.”
De volta a Caxias do Sul, Sophia retomou as atividades no Velha Carreta. Em 2023, recebeu o convite para participar da Ciranda Cultural de Prendas da entidade. Na primeira participação, conquistou o título de Segunda Prenda Mirim. No ano seguinte, voltou a competir, desta vez mais preparada, e conquistou o título de Primeira Prenda Mirim da entidade, garantindo a vaga para a etapa regional.
“Na segunda vez que eu concorri, como eu já tinha uma experiência um pouco maior, eu comecei a me dedicar mais, a estudar mais e a preparar minhas provas com um pouco mais de antecedência.”

A preparação para a etapa estadual começou ainda em julho de 2025. Foram meses de estudos, leituras e produção de resumos. Sophia conta que chegou a produzir vários cadernos de resumo durante o processo. Além da prova escrita, precisou se preparar para as avaliações oral e artística e para a mostra folclórica.
“Eu tenho uns três, quatro livros, eu acho, de resumo só da Ciranda Estadual. É algo realmente muito intenso.”
Sem uma professora específica para acompanhá-la, Sophia organizou a própria preparação. Lia os livros, fazia os resumos, estudava e utilizava a internet como ferramenta de pesquisa. Para o pai, Diogo Scapin, a dedicação da filha foi o que mais chamou a atenção durante todo o processo.
“Ela se trancava no quarto, lia, resumia. Mostrava para mim, ‘Olha só o que eu fiz hoje’. Livros e cadernos e cadernos de resumo. A gente nisso percebia e sabia que ela estava querendo muito.”
Diogo destaca que a família não tinha condições de fazer grandes investimentos na preparação, mas procurou oferecer todo o apoio possível para que Sophia pudesse seguir o sonho.
“A proposta que a gente fez para ela foi a seguinte: Sophia, tu vai porque tu gosta, porque tu quer, e a gente vai te apoiar porque a gente quer que tu faça o que é melhor para ti. E esse é um caminho bom. O tradicionalismo é um bom caminho.”
A mostra folclórica também foi um momento especial, Sophia decidiu resgatar brincadeiras antigas e, para isso, buscou memórias dentro da própria família.
“A mostra folclórica é um período de resgate. Eu acredito que essa parte seja uma das mais importantes de uma Ciranda de Prendas, porque fala sobre a gente resgatar aquela herança dos antepassados, as tradições dos nossos povos que vieram antes de nós.”
Na prova oral, Sophia enfrentou o nervosismo. Um pequeno erro no início da apresentação, porém, acabou se transformando em um dos principais aprendizados da competição.
“O maior aprendizado que eu tive na Ciranda de Prendas foi exatamente isso: o que importa não é tu ser uma prenda perfeita. Tu vai lá, tu errou, tudo bem, segue em frente. É isso que a gente está lá em cima para fazer: saber reconstruir através do erro.”
A etapa estadual aconteceu em Erechim. Entre 27 concorrentes da categoria, Sophia ouviu seu nome ser anunciado como a Terceira Prenda Mirim do Rio Grande do Sul.
“Surpresa. Muita surpresa. Eu nunca imaginava. Tinham 27 prendas, poderíamos ter sido qualquer uma delas. Ser chamada como a terceira prenda mirim, saber que eu fui chamada como Terceira Prenda Mirim do Rio Grande do Sul, foi algo muito gratificante.”
A conquista tem ainda um significado especial para a família. As raízes tradicionalistas vêm de gerações anteriores. O avô de Talita Schleder, mãe de Sophia, Vitor Hugo Scheleder, participou da criação do CTG Fagundes dos Reis, em Passo Fundo, ainda na década de 60.
“Na verdade, ela vem dos meus avós. O meu avô, Vitor Hugo Schleder, criou um CTG em Passo Fundo na década de 60, o CTG Fagundes dos Reis.”

A história familiar também se conecta ao tropeirismo e, curiosamente, à própria passagem da família por Sorocaba. Quando moraram na cidade paulista, os pais descobriram a ligação do CTG Fronteira Aberta com antigas rotas utilizadas pelos tropeiros. Também descobriram que um antepassado da família havia sido enterrado em Sorocaba. A experiência reforçou para Diogo Scapin e Talita Schleder, pais de Sophia a dimensão da cultura gaúcha fora do Estado.
“A gente achava muito estranho isso pessoas de outros estados entendiam e praticavam a nossa cultura. E aí, nesse contexto de ir para São Paulo e retornar, a gente entendeu e conheceu essa história.”
Para Diogo, o título estadual também representa uma mensagem sobre a importância da dedicação. Ele acredita que Sophia mostrou que é possível alcançar grandes resultados com estudo e esforço, mesmo sem uma estrutura de preparação considerada ideal.
“O maior legado que a Sofia vai deixar para o tradicionalismo é: você pode ir para um estadual se esforçando. Todas as provas foi a Sofia que escreveu, ela fez os textos, ela estudou, ela fez os textos, ela decorou, ela mudou. A música foi ela que treinou, foi ela que cantou.”

Hoje, a rotina da jovem mudou. Como Terceira Prenda Mirim do Estado, Sophia passou a viajar para diferentes cidades para participar de eventos e representar o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG). E mesmo diante da nova responsabilidade, ela já pensa nos próximos desafios.
“Meus sonhos nunca vão acabar dentro de Cirandas. Por mim, se eu conseguir, se eu tiver a possibilidade, eu vou como prenda juvenil, eu vou como prenda adulta.”
A faixa que Sophia carrega hoje representa mais do que um título. É o resultado de uma caminhada que começou ainda na infância, passou pela dança, pelos estudos, pelas viagens e pelo resgate das histórias familiares. Uma trajetória que também deixa uma mensagem para outras crianças e jovens que estão começando no tradicionalismo.
“Não desistam dos seus sonhos, porque tudo é possível se tu te dedicar bastante. Mesmo se de primeira vez der errado, mesmo que não seja como tu espera que seja, não desista dos seus sonhos.”
Entre livros, cadernos, viagens, música e tradição, Sophia segue escrevendo a própria história com a faixa no peito e novos sonhos pela frente.
Rádio Caxias, repórter Jair Junior.



