De cartelas de medicamentos que ganham nova utilidade à pesquisa para transformar lixo em hidrogênio de baixo carbono, iniciativas aproximam ciência, tecnologia, sustentabilidade e desenvolvimento econômico na região
O que acontece depois que uma cartela de medicamento é descartada? E quando um resíduo que já não pode mais ser reaproveitado pela indústria deixa de ser considerado lixo e passa a ser utilizado como matéria-prima para produzir energia?
Essas perguntas ajudam a explicar uma transformação que começa a ganhar espaço em Caxias do Sul e na Serra Gaúcha. Empresas, cooperativas, pesquisadores, produtores rurais e poder público vêm desenvolvendo iniciativas que buscam reduzir a geração de resíduos, ampliar o reaproveitamento de materiais e incorporar novas tecnologias aos processos produtivos.
A lógica é diferente daquela em que sustentabilidade significa apenas reduzir impactos ambientais. A proposta é fazer com que ciência e inovação sejam utilizadas para criar novas soluções e, em alguns casos, transformar um passivo ambiental em matéria-prima, produto ou fonte de energia.
Um dos exemplos está em Caxias do Sul, onde um resíduo de difícil reaproveitamento ganhou uma nova função.
Da cartela de medicamento à matéria-prima
Desde 2022, o Projeto Cartela do Bem já arrecadou mais de 120 toneladas de blisters — as embalagens utilizadas para acondicionar medicamentos.
A iniciativa é desenvolvida pela Cooperativa Paz e Bem em parceria com o Recanto da Compaixão, do Frei Jaime Bettega. Depois da coleta, o material é triado e compactado na sede da cooperativa e encaminhado para reciclagem.
Em entrevista à Rádio Caxias, a responsável pela Educação Ambiental e Marketing da Cooperativa Paz e Bem, Tânia Miranda Silva, explicou que o material segue para uma empresa especializada no Paraná e retorna à cadeia produtiva como matéria-prima reciclada.
Entre os produtos resultantes estão estruturas de PVC utilizadas nas chamadas ecotendas, instaladas em diferentes pontos de Caxias do Sul para ampliar os locais de coleta.
O projeto une duas dimensões da sustentabilidade: a ambiental e a social. Além de evitar que as cartelas sejam descartadas junto ao lixo convencional, os recursos obtidos com a destinação do material ajudam na manutenção do Recanto da Compaixão, que atende mais de 125 pessoas em situação de vulnerabilidade social.
A experiência mostra que a reciclagem não termina na separação do resíduo. Existe uma cadeia tecnológica e produtiva por trás dela, responsável por transformar o material descartado em um novo insumo.
E essa cadeia depende também da participação da população.
A Cooperativa Paz e Bem recebe aproximadamente 55 toneladas de resíduos por dia. Segundo Tânia Miranda Silva, apenas cerca de 60% desse volume é efetivamente reciclável. O restante chega misturado com rejeitos, como restos de alimentos, roupas e outros materiais que dificultam ou impedem o reaproveitamento.
Infraestrutura para ampliar a reciclagem
Para melhorar esse processo, Caxias do Sul também vem ampliando os espaços destinados à entrega voluntária de resíduos.
Em agosto de 2025, foi inaugurado um novo Ecoponto junto à sede da Cooperativa Paz e Bem, no bairro Santa Fé. O espaço recebe materiais de grande porte, como móveis e eletrodomésticos, além de cartelas de medicamentos.
O presidente da Cooperativa Paz e Bem, Tiago Pavelski, explicou à Rádio Caxias que a proximidade entre o Ecoponto e a estrutura de triagem permite agilizar o encaminhamento dos materiais para reciclagem.
Já o então diretor-geral da Secretaria Municipal do Meio Ambiente e Sustentabilidade, Anderson Barros, destacou a importância de aproximar a população do trabalho realizado pelas cooperativas e de reforçar a educação ambiental.
O sistema de reciclagem do município envolve uma cooperativa e 11 associações conveniadas, que processam cerca de 90 toneladas de materiais recicláveis por dia. A atividade alcança mais de 1,2 mil famílias e representa aproximadamente 20% dos resíduos urbanos coletados em Caxias do Sul.
Ou seja: antes de qualquer tecnologia avançada, existe uma etapa fundamental — separar corretamente o resíduo para que ele possa voltar à cadeia produtiva.
Quando o lixo passa a ser combustível
Na Serra Gaúcha, a pesquisa científica está levando esse conceito ainda mais longe.
Em Vacaria, uma parceria entre a Universidade de Caxias do Sul, a Rodoplast, a Ambientalplast e o Governo do Estado está desenvolvendo uma tecnologia para transformar resíduos sólidos urbanos em matéria-prima para a produção de hidrogênio de baixo carbono.
A iniciativa nasceu, em parte, de um problema enfrentado pela própria indústria.
Segundo Marcelo Dondé, gerente de relacionamento da Rodoplast, a empresa acumulava resíduos plásticos que não podiam mais ser reincorporados ao processo produtivo porque estavam contaminados com diferentes tipos de polímeros. A busca por uma alternativa levou à criação da Ambientalplast e à aproximação com pesquisadores da UCS.
A solução utiliza a pirólise, processo que submete o material a altas temperaturas e permite obter produtos como óleo, gás e carvão.
O professor Marcelo Godinho, coordenador do Laboratório de Energia e Bioprocessos da UCS, explicou à Rádio Caxias que, no projeto, os resíduos sólidos urbanos passam por preparação, transformação em biomassa e peletização antes de chegarem ao pirolisador.
Parte do óleo produzido segue posteriormente para uma etapa de reforma a vapor, utilizada para a obtenção do hidrogênio de baixo carbono.
A dimensão do projeto ajuda a entender o potencial da tecnologia.
Vacaria produz aproximadamente 35 toneladas de resíduos sólidos urbanos por dia. Depois da preparação e retirada da água, cerca de 17 toneladas e meia devem seguir para o processo de pirólise.
A expectativa é produzir aproximadamente dois mil litros de óleo diariamente. Cerca de 30% desse volume poderá ser destinado à produção de hidrogênio.
O projeto recebeu R$ 30 milhões em subvenção econômica do Governo do Estado.
A secretária executiva do programa Hidrogênio Verde RS, Isa Osterkamp, classificou a iniciativa como pioneira entre os projetos apoiados pelo Estado, justamente por utilizar resíduos sólidos urbanos como rota para a produção do combustível, em vez da eletrólise da água adotada em outras propostas.
Mas a tecnologia ainda está em fase de implantação e pesquisa. O custo de produção, os equipamentos e a necessidade de estruturar uma cadeia de distribuição estão entre os principais desafios apontados pelos envolvidos.
A produção do hidrogênio está prevista para começar em 2027. A proposta é utilizar a planta como uma espécie de laboratório em escala real e avaliar se o modelo poderá ser reproduzido em outros municípios.
Ciência e sustentabilidade também chegam à produção de alimentos
A busca por processos mais sustentáveis não está restrita aos resíduos.
Na vitivinicultura, um dos principais setores econômicos da Serra Gaúcha, a sustentabilidade também passa a ser incorporada à rotina das propriedades.
O Programa Viti + Sustentável, desenvolvido pelo Consevitis-RS em parceria com o Sebrae e a empresa UPL, atendeu cerca de 350 famílias produtoras da região em 2025.
Em entrevista ao Jornal da Caxias, o presidente do Consevitis-RS, Luciano Rebellatto, explicou que o programa acompanha os produtores na adoção de boas práticas com o objetivo de preparar as propriedades para uma futura certificação e para o acesso a mercados mais exigentes.
Entre os procedimentos estão a utilização do caderno de campo, rastreabilidade da produção, organização do armazenamento de produtos químicos e regularização da contratação de trabalhadores.
Nesse caso, a sustentabilidade também passa a funcionar como requisito para competitividade.
O produtor precisa demonstrar como produz, quais insumos utiliza, como controla os processos e de que maneira garante a rastreabilidade. A preocupação ambiental se conecta, assim, à segurança do consumidor, à organização da propriedade e à possibilidade de alcançar novos mercados.
Indústria busca combinar sustentabilidade e tecnologia
O mesmo movimento aparece no setor industrial.
Em Caxias do Sul, o 3º Simpósio de Inovação, Tecnologia e Sustentabilidade do Simplás colocou no mesmo debate temas como economia circular, design sustentável, inovação digital e inteligência artificial.
O organizador do evento e então 2º vice-presidente do Simplás, Cláudio Meneghel, destacou à Rádio Caxias a necessidade de discutir como essas tecnologias podem modificar processos e modelos de negócio.
Entre os especialistas convidados estavam profissionais das áreas de tecnologia, inovação, design, sustentabilidade, economia circular e inteligência artificial.
A discussão revela uma mudança importante: sustentabilidade passa a ser pensada desde o desenvolvimento de um produto e não apenas no momento em que ele se transforma em resíduo.
Quanto mais cedo os critérios ambientais entram no processo de produção, maior pode ser a possibilidade de reduzir desperdícios, reaproveitar materiais e aumentar a eficiência.
Sustentabilidade também envolve pessoas
Nas grandes empresas, o conceito aparece associado ao ESG — sigla utilizada para reunir práticas ambientais, sociais e de governança.
Durante a 4ª edição do evento Ambição ESG, promovido pela Randoncorp e pela Frasle Mobility, foram apresentados projetos relacionados à economia circular, inovação sustentável, diversidade e inclusão.
O presidente da Randoncorp, Daniel Randon, participou das discussões e destacou a necessidade de combinar tradição industrial com inovação.
A empresa estabeleceu, entre suas metas, a redução de 40% das emissões de gases de efeito estufa até 2030. Em 2024, também informou investimentos de R$ 14,7 milhões em ações sociais e R$ 64 milhões em segurança.
O exemplo demonstra que a agenda de sustentabilidade deixou de estar limitada à relação entre empresa e meio ambiente.
Questões como diversidade, saúde, segurança, inclusão, relações de trabalho e governança passaram a fazer parte da discussão sobre o impacto das organizações.
O desafio climático exige novas soluções
Para o poder público, o desafio é transformar essas iniciativas em políticas permanentes.
A bióloga Vanise Sebben, diretora de Sustentabilidade e Mudanças Climáticas da Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Caxias do Sul, vem participando das discussões sobre planejamento climático e transformação ecológica no município.
Durante a 1ª Conferência Municipal do Meio Ambiente, realizada em 2024, Vanise destacou a importância da participação conjunta do poder público, setor privado e sociedade civil na construção de respostas para a emergência climática.
Entre as propostas formuladas estavam a ampliação das políticas de economia circular, o incentivo à sustentabilidade na agricultura, o fomento à biodiversidade e o aproveitamento energético de resíduos.
A discussão ganha relevância em uma região que também enfrenta os efeitos de eventos climáticos extremos.
Nesse cenário, a sustentabilidade deixa de ser apenas uma escolha de empresas ou consumidores e passa a fazer parte do planejamento das cidades.
Uma nova lógica para o desenvolvimento
Os projetos são diferentes entre si.
Uma cartela de medicamento reciclada não utiliza a mesma tecnologia empregada na produção de hidrogênio. A rastreabilidade de uma propriedade vitivinícola não depende dos mesmos processos de uma indústria que busca reduzir emissões.
Mas todos apontam para uma mudança de lógica.
O resíduo deixa de ser visto apenas como aquilo que precisa ser descartado.
Pode ser matéria-prima.
Pode retornar à cadeia produtiva.
Pode gerar renda.
Pode reduzir custos.
Pode, com o desenvolvimento tecnológico adequado, transformar-se em energia.
E pode ainda contribuir para a criação de novos negócios.
É justamente nessa convergência que entram ciência, inovação e sustentabilidade.
Na Serra Gaúcha, pesquisadores, empresas, cooperativas e poder público começam a testar diferentes caminhos para responder a problemas que já fazem parte do cotidiano: o aumento da geração de resíduos, a necessidade de reduzir emissões, a pressão por processos produtivos mais eficientes e os efeitos das mudanças climáticas.
O desafio agora é fazer com que experiências desenvolvidas em projetos-piloto, cooperativas, propriedades rurais e empresas consigam ganhar escala.
Porque, no futuro da sustentabilidade, a pergunta não será apenas quanto lixo uma sociedade produz.
Será também o que é possível fazer com aquilo que hoje chamamos de lixo.





