A utilização da inteligência artificial nas instituições de ensino brasileiras passa a ser tema de debate nacional com a abertura da consulta pública da primeira regulamentação oficial sobre o uso da tecnologia na educação. A proposta, aprovada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), busca estabelecer diretrizes para a adoção da IA em salas de aula, conciliando inovação tecnológica e responsabilidade pedagógica.
O documento reconhece que a inteligência artificial já faz parte da rotina de estudantes e professores, mas reforça que o processo educacional deve continuar centrado no ser humano. Entre as medidas previstas estão a supervisão obrigatória de conteúdos produzidos por algoritmos e a manutenção do papel do professor como mediador indispensável da aprendizagem.
Em entrevista à reportagem, o consultor em tecnologia Elemar Júnior afirmou que a iniciativa representa um avanço importante diante da rápida expansão da inteligência artificial em diferentes áreas da sociedade.
“O uso da inteligência artificial é inevitável. Ela já faz parte da vida das pessoas e continuará presente cada vez mais dentro e fora das instituições de ensino. O importante é que as pessoas aprendam a utilizar essa tecnologia da maneira correta”, destacou.
Segundo o especialista, a regulamentação reconhece que a IA não pode ser ignorada pelo sistema educacional, mas também estabelece limites para evitar que a ferramenta substitua competências essenciais ao aprendizado.
“Se o conhecimento tradicional é a base para questionar, validar e interpretar as respostas fornecidas pela inteligência artificial, ele continua sendo necessário. A tecnologia deve apoiar o processo de aprendizagem, e não substituir a construção do conhecimento”, explicou.
A proposta também prevê a preparação dos estudantes para um mercado de trabalho que já opera em ambientes híbridos, nos quais profissionais e sistemas inteligentes atuam de forma integrada. Para Elemar, essa adaptação será um dos principais desafios das instituições de ensino nos próximos anos.
“Estamos vivendo um processo de transformação. Não acredito que apenas a educação brasileira, mas a educação mundial ainda esteja totalmente preparada para essa realidade. Todos estão aprendendo a lidar com essa nova tecnologia”, avaliou.
Outro ponto destacado pelo consultor é a responsabilidade sobre o uso da inteligência artificial. Conforme ele, a decisão final sobre qualquer conteúdo ou atividade realizada com apoio da tecnologia deve permanecer sob responsabilidade humana.
“Um profissional não pode utilizar a inteligência artificial e depois culpá-la por um eventual erro. A responsabilidade continua sendo humana e, por isso, a decisão final também precisa ser humana”, afirmou.
A preocupação com aspectos éticos também está presente na proposta do CNE. De acordo com Elemar, embora a inteligência artificial seja capaz de processar grandes volumes de dados e gerar respostas complexas, ela ainda não possui a capacidade de realizar julgamentos morais ou compreender contextos da mesma forma que as pessoas.
“O principal risco é transferir para a inteligência artificial decisões que são essencialmente humanas. Questões relacionadas à ética, responsabilidade e valores continuam dependendo da avaliação das pessoas”, observou.
Para o especialista, a tecnologia deve ser vista como uma ferramenta de apoio capaz de tornar processos mais eficientes, mas sem substituir a experiência, a criatividade e o senso crítico. Ele ressalta que a diferenciação profissional continuará baseada na capacidade humana de interpretar cenários, formular perguntas relevantes e avaliar resultados.
“A inteligência artificial consegue gerar volume de informação, mas não produz repertório, vivência ou experiência. O diferencial continuará sendo aquilo que cada pessoa é capaz de acrescentar ao conhecimento”, pontuou.
A consulta pública permitirá que educadores, especialistas, instituições e a sociedade civil apresentem sugestões ao texto antes da publicação definitiva da regulamentação. A expectativa é que a norma sirva como referência para o uso responsável da inteligência artificial no ensino brasileiro, em um cenário de crescente presença da tecnologia no cotidiano escolar.
