Juros elevados, custo do crédito e estrutura de endividamento estão entre os fatores que pressionam empresas; especialista alerta para a importância de identificar sinais de crise com antecedência
O aumento de pedidos de recuperação judicial envolvendo empresas de Caxias do Sul e da Serra Gaúcha chama a atenção para as dificuldades financeiras enfrentadas pelo setor produtivo. Para o advogado Thomas Dulac Müller, especialista em administração de insolvência, o cenário está relacionado principalmente ao elevado custo do crédito, ao endividamento e ao peso das despesas financeiras sobre os resultados.
Em entrevista à Rádio Caxias, Müller avaliou que a economia apresenta sinais de deterioração e que o ambiente pode se tornar ainda mais desafiador nos próximos anos.
Entre os principais fatores de pressão está o custo dos financiamentos. Segundo o especialista, empresas que trabalham com margens reduzidas podem ter dificuldades para suportar juros elevados.
Segundo o especialista, quando o custo da dívida supera a capacidade de geração de resultado, o financiamento passa a comprometer o caixa e pode agravar a crise.
Como exemplo, Müller explica que, se uma empresa apresenta resultado de 4% ou 5%, mas contrata operações financeiras com custos superiores, não há geração suficiente para sustentar o endividamento.
A recomendação, nesses casos, é reduzir a contratação de novas dívidas e, quando possível, avaliar a venda de ativos para diminuir o passivo.
Müller também destaca que a recuperação judicial não representa necessariamente o fim das atividades de uma empresa. O mecanismo permite a reorganização financeira e a renegociação das dívidas.
Dentro dos prazos previstos em lei, ações e execuções podem ser suspensas, criando um período para que a empresa reorganize sua estrutura e negocie com os credores.
O advogado compara o processo a um tratamento para uma empresa em crise: quanto mais cedo o problema for identificado, maiores são as possibilidades de buscar alternativas.
A recuperação, porém, não garante a sobrevivência do negócio. O resultado depende da estrutura financeira, da capacidade de renegociação e da viabilidade da empresa.
As dívidas tributárias também podem fazer parte do processo de reorganização. O especialista destaca a existência de mecanismos legais para negociação desses débitos.
Outro sinal de agravamento da crise ocorre quando a empresa passa a utilizar recursos destinados a uma obrigação para cobrir outra. Um exemplo é direcionar valores que deveriam pagar tributos para quitar a folha de funcionários ou fornecedores.
Segundo Müller, esse tipo de situação indica que o caixa já está sob forte pressão.
A crise financeira das empresas também pode afetar trabalhadores e a economia regional. A recuperação judicial pode ajudar negócios viáveis a manter suas atividades e preservar empregos, mas nem todas as empresas conseguem superar o processo.
Por isso, o especialista recomenda acompanhamento permanente do nível de endividamento e do custo financeiro das operações. A identificação antecipada dos sinais de desequilíbrio pode permitir a adoção de medidas antes que a crise evolua para um quadro de insolvência.
Confira a entrevista completa no Caxias Play.



