Uma plataforma brasileira criada para facilitar a troca e a doação de livros passou a incorporar a inteligência artificial como ferramenta de mediação da leitura. O Bookshare lançou o recurso “Conversar sobre o Livro”, que permite aos leitores interagir com uma IA a partir do conteúdo de obras disponíveis na plataforma.
A proposta é ampliar não apenas o acesso aos livros, mas também as possibilidades de interação com o conteúdo. O leitor pode fazer perguntas sobre capítulos, personagens e conceitos, pedir explicações sobre trechos, identificar os principais pontos da obra e relacionar diferentes ideias apresentadas pelo autor.
A iniciativa ganha relevância em um cenário de redução dos espaços tradicionais de mediação da leitura no Brasil. Dados do IBGE citados pelo Bookshare apontam que quase 800 bibliotecas públicas foram fechadas entre 2015 e 2020 e que oito em cada dez municípios não possuem biblioteca pública com gestão municipal efetiva.
Segundo o cofundador e idealizador do Bookshare, Ismael Duarte Pereira, a plataforma nasceu com o objetivo de democratizar o acesso aos livros, conectando pessoas que possuem exemplares a quem deseja ler. Com o desenvolvimento do projeto, porém, a equipe identificou que o acesso ao livro era apenas uma parte do processo.
A partir dessa percepção, surgiu a proposta de utilizar a inteligência artificial como uma espécie de companheira de leitura. A tecnologia passa a criar uma camada de interação depois que o leitor entra em contato com a obra.
Pereira explica que a ferramenta não funciona como uma IA genérica. Cada agente é preparado a partir de uma obra específica, com curadoria e autorização dos autores ou editoras. Dessa forma, o leitor pode conversar sobre o conteúdo do livro mantendo a interação relacionada ao contexto daquela obra.
Para o idealizador, esse diálogo pode contribuir para transformar a leitura em uma experiência mais ativa. Ao questionar uma ideia, pedir uma explicação, confrontar conceitos ou relacionar diferentes partes do livro, o leitor deixa de apenas consumir informação e passa a interagir com o conteúdo.
Essa dinâmica também pode contribuir para a formação de novos leitores, ao tornar o contato com os livros mais participativo e acessível. A ferramenta pode ser utilizada para esclarecer dúvidas, estimular a curiosidade e criar novas perguntas a partir daquilo que foi lido.
O projeto, no entanto, estabelece como princípio que a tecnologia deve complementar a leitura, e não substituí-la. Pereira ressalta que o objetivo não é permitir que o usuário obtenha um resumo da obra sem ler o livro, mas oferecer uma ferramenta de apoio para aprofundar a experiência.
A expectativa é que o recurso também possa ser utilizado em ambientes coletivos de aprendizagem. Entre as possibilidades estão escolas, bibliotecas, clubes de leitura e projetos de incentivo à leitura, nos quais a inteligência artificial poderia ampliar as discussões iniciadas entre leitores e mediadores.
O Bookshare pretende ampliar gradualmente o número de livros e autores participantes, sempre com autorização dos detentores dos direitos. A proposta é utilizar a tecnologia como instrumento para aproximar as pessoas dos livros e criar novas possibilidades de interação com a leitura.
Atualmente, a funcionalidade está disponível para obras de autores parceiros, entre eles James Marins, Cesar Pires, Nivaldo Nassiff e Adriana de Araújo. O catálogo reúne títulos principalmente nas áreas de gestão, liderança, estratégia, desenvolvimento humano e prática profissional.



