“Empresas que não olham para o futuro correm o risco de não fazer parte dele.” A frase, dita por um dos entrevistados da reportagem especial deste fim de semana, resume o espírito de uma transformação silenciosa — mas irreversível — que se espalha pelas empresas do Brasil e do mundo.
No coração da Serra Gaúcha, Caxias do Sul emerge como palco de uma mudança de mentalidade que coloca o ESG (sigla em inglês para Environmental, Social and Governance — Ambiental, Social e Governança) no centro da estratégia empresarial. Mais do que uma tendência passageira ou um selo de boas intenções, ESG representa um pacto com a vida, com a equidade e com o futuro do planeta.
O ESG como resposta concreta aos desafios do século XXI
Segundo o consultor Luiz Goi, com mais de duas décadas de atuação na área, enxergar o ESG como modismo é não entender a gravidade dos riscos que ele busca enfrentar.
“Vivemos em um mundo volátil, marcado por crises ambientais, desigualdades sociais e demandas crescentes por governança ética. O ESG é uma resposta estratégica a tudo isso. E não é só para grandes empresas. Micro e pequenas também devem assumir esse compromisso. Ignorar a agenda ESG é ignorar o futuro”, afirma Goi.
Esse despertar para a sustentabilidade empresarial tem ganhado força em Caxias do Sul por meio de formações, eventos e ações concretas. Na edição de 2023 da Mercopar — maior feira de inovação industrial da América Latina — o ESG foi o tema central. Já instituições como a Câmara de Indústria, Comércio e Serviços (CIC Caxias), a FSG e a UCS passaram a oferecer cursos, especializações e MBAs focados na aplicação prática dos pilares ESG.
No canal do youtube da @BiosysAmbiental, Guilherme Guila Sebben, diretor de ESG da CIC e nomeado Embaixador da Educação Ambiental pela prefeitura de Caxias do Sul, destaca:
“Capacitar pessoas para a gestão sustentável é uma prioridade. ESG não é só meio ambiente. Envolve também justiça social e ética nos processos. E tudo isso está diretamente ligado aos direitos humanos.”
Da logística reversa à inovação sustentável: o exemplo da BioCis
A trajetória da empresa BioCis Ambiental, fundada como braço verde do grupo Datacis, é um exemplo local de como a sustentabilidade pode guiar o crescimento. Criada em 2008 com foco na logística reversa de lâmpadas e no reaproveitamento de mercúrio, a empresa adaptou-se à evolução do mercado — especialmente com o avanço das tecnologias LED — e ampliou sua atuação.
Em 2017, assumiu a operação da antiga transportadora Arpolog, transformando-a em uma Unidade de Gerenciamento de Resíduos Industriais em São Sebastião do Caí. Hoje, celebra 15 anos de história e sete da nova unidade.
Entre os destaques da empresa estão:
- Certificação ISO 14001;
- Unidade licenciada pela FEPAM, com área de 10 mil m²;
- Geração de energia própria por meio de usina fotovoltaica;
- Primeira central licenciada de triagem de resíduos Classe 1 no RS (2015);
- Spin-off de P&D — a Nova Bio, liderada por Eduardo Sebben, com foco em soluções que melhorem a qualidade de vida.
“Nosso compromisso é cuidar do planeta e garantir soluções ambientais viáveis. Sustentabilidade, para nós, é prática diária”, afirma Guilherme Sebben.
Pequenas empresas, grandes impactos
A agenda ESG também vem ganhando protagonismo entre os pequenos negócios. O Simecs, sindicato da indústria metalúrgica local, iniciou um projeto piloto com 14 micro e pequenas empresas. Segundo a diretora executiva, Daiane Catuzzo, os resultados foram visíveis:
“Em poucos meses, houve mudanças reais no ambiente de trabalho e nas finanças. ESG é mais acessível do que parece. Cada empresa escolheu seu pilar mais urgente — ambiental, social ou governança — com apoio de programas como o Procompi e mentorias especializadas.”
Randoncorp: referência em sustentabilidade corporativa
Entre as grandes corporações da região, a Randoncorp, com quase 75 anos de história, é uma das que mais se destacam no cenário ESG. Para o presidente Daniel Randon, sustentabilidade já está no DNA da empresa.
“Trabalhamos com economia circular, temos metas de redução de emissões e investimos em inclusão. Nosso objetivo é reduzir em 40% a emissão de gases de efeito estufa até 2030”, explica.
Além disso, a Randoncorp:
- Investiu mais de R$ 14 milhões em ações sociais;
- Lidera projetos de diversidade e inclusão, com 20% dos cargos de liderança ocupados por mulheres.
“Não se trata apenas de reputação. ESG é estratégia. É sobrevivência em um mundo que exige responsabilidade e transparência”, completa Randon.
ESG como extensão dos direitos humanos
A agenda ESG, ao contrário do que muitos ainda acreditam, vai muito além dos relatórios técnicos ou da estética dos selos sustentáveis. Ela representa uma nova forma de fazer negócios: mais ética, mais justa e mais conectada com os desafios sociais e ambientais contemporâneos.
É uma extensão dos direitos humanos dentro do ambiente corporativo: da fábrica que reduz seus resíduos, à multinacional que investe em diversidade, o recado é claro — empresas que cuidam das pessoas e do planeta estão se posicionando não só como éticas, mas como visionárias.
“No século XXI, lucro e responsabilidade não são opostos. São complementares. A agenda ESG é o caminho para negócios que querem continuar relevantes amanhã”, conclui Luiz Goi.

Saiba mais:
O que é ESG?
O termo ESG foi cunhado em 2004 em um relatório do Pacto Global da ONU. Refere-se a critérios que avaliam o desempenho de uma empresa em três áreas:
- E (Environmental): gestão ambiental, emissão de carbono, resíduos e uso de recursos naturais.
- S (Social): relações com colaboradores, diversidade, inclusão, respeito aos direitos humanos.
- G (Governance): ética corporativa, combate à corrupção, transparência e compliance.
Empresas como Natura, Unilever e Itaú Unibanco lideram a agenda no Brasil e mostram que sustentabilidade não é custo — é investimento.
Segundo especialistas, os principais benefícios são:
- Redução de riscos operacionais;
- Aumento da lucratividade;
- Atração e retenção de talentos;
- Fortalecimento da reputação.
Desafios ainda existem, como o custo inicial de implementação e a resistência cultural em algumas organizações. Mas a direção é clara: o futuro será sustentável — ou não será.

Confira a animação que trata sobre a relação danosa do ser humano com o meio ambiente e a relação disso com as mudanças climáticas. A produção intitulada “Man, de Steve Cutts está disponível no site www.stevecutts.com