Desde os primeiros registros da humanidade, luzes no céu e fenômenos inexplicáveis despertam curiosidade, medo e fascínio. Entre crença e ceticismo, o tema segue dividindo opiniões, enquanto parte das pessoas associa imediatamente esses eventos à vida extraterrestre, especialistas apontam que a maioria dos casos possui explicações naturais ou tecnológicas. Ainda assim, uma pequena parcela permanece sem resposta — e é justamente nela que se concentram as maiores dúvidas.
A chamada ufologia moderna, hoje mais próxima de uma abordagem científica, adota o conceito de Fenômenos Aéreos Não Identificados, substituindo o termo popular “OVNI”, que se referia apenas a objetos. Segundo pesquisadores, cerca de 95% dos registros são esclarecidos com base em fatores como satélites, aeronaves, condições atmosféricas ou até ilusões ópticas. Os demais 5%, no entanto, continuam atraindo o interesse público.
O caso em Caxias do Sul
É nesse contexto que se insere um dos episódios mais emblemáticos registrados na Serra Gaúcha. Em setembro de 2020, o morador de Caxias do Sul, Lucas Fragoso, afirma ter presenciado um fenômeno incomum no céu. O avistamento ocorreu por volta das 5h da manhã e durou cerca de cinco minutos.
A reportagem ouviu o autor das imagens, que relembrou o momento em que registrou o fenômeno que parecia um triângulo luminoso. Segundo Lucas, o episódio aconteceu quando acordou durante a madrugada e foi até a cozinha. Ao olhar pela janela, se deparou com três luzes alaranjadas formando um triângulo no céu.
Ele registrou o fenômeno em vídeo e o publicou nas redes sociais. O material rapidamente viralizou, alcançando milhares de visualizações e chamando a atenção de especialistas.
O primeiro a investigar o caso foi o ufólogo David Vanzin, membro da Comissão Brasileira de Ufólogos e co-editor da revista Fenômeno UFO. Segundo ele, a investigação seguiu protocolos rigorosos para tentar entender o fenômeno registrado por Lucas. Vanzin detalha que o processo inclui entrevistas extensas, análises de campo e avaliação por especialistas de diferentes áreas.
No entanto, o caso de Caxias do Sul permaneceu com o resultado inconclusivo, segundo Vanzin, se enquadrando entre os 5% das situações em que não se encontra uma explicação lógica definitiva após todas as análises iniciais. Por isso, o episódio foi encaminhado para investigações mais aprofundadas e reavaliado posteriormente.
Da investigação à televisão
A repercussão e a complexidade do caso levaram o episódio ocorrido em Caxias à série televisiva “Esquadrão UFO”, exibida pelo History Channel. UFO é a sigla em inglês para Unidentified Flying Object (objeto voador não identificado). A produção reúne especialistas para reavaliar ocorrências com base em novas análises, tecnologia e investigação de campo.
Entre os integrantes do grupo está o ufólogo Rafael Amorim, que investiga e apresenta os casos abordados na série. Com mais de 30 anos de experiência, Amorim destaca que sempre atuou nos bastidores da ufologia, realizando pesquisas de campo no Brasil e países vizinhos. A entrada para a televisão amplia o alcance desse trabalho, mas mantém a mesma base investigativa.

O caso investigado em Caxias do Sul teve grande repercussão e controvérsia desde sua divulgação. Amorim relata que a investigação envolveu análises anteriores feitas por Vanzin, além de novas verificações em campo. Foram considerados fatores como posição da lua, condições do céu e análise de imagens, incluindo questionamentos sobre explicações apresentadas anteriormente. A equipe também utilizou drones e reconstituições para entender o fenômeno.
A produção não retrata apenas o caso de Caxias, mas também outros episódios investigados no Brasil, como relatos de pilotos que avistaram objetos não identificados próximos ao Aeroporto Salgado Filho em Porto Alegre e o surgimento de agroglifos no interior de Santa Catarina.
Os casos investigados foram escolhidos com base na existência de evidências concretas, como fotos e vídeos originais. Segundo o diretor da série, Léo Sassen, relatos sem provas materiais não entram na análise, pois não permitem verificação técnica. A equipe priorizou ocorrências com possibilidade de análise de metadados e contato direto com testemunhas, o que levou à concentração de episódios no Sul do Brasil, especialmente no Rio Grande do Sul.
Um dos pontos centrais da série é a ausência de consenso entre os especialistas. Sassen afirma que divergências são frequentes e fazem parte do processo, com diferentes interpretações sobre o mesmo material. Ao final, as conclusões são definidas por votação, mas sem interferência da produção, preservando a autenticidade das análises.

Amorim afirma que a existência de registros equivocados ou manipulados reforça a importância do trabalho investigativo. Ele critica a disseminação de conteúdos sem verificação nas redes sociais e destaca que muitos vídeos populares mostram fenômenos comuns, como satélites. Nesse contexto, a série busca demonstrar como deve ser feita uma análise criteriosa para evitar conclusões precipitadas.
Entre o mistério e a ciência
O pesquisador também defende que é essencial manter equilíbrio entre curiosidade e rigor científico. Ele resume essa postura com a ideia de “um olho no céu e um pé no chão”, ressaltando que não se pode tirar conclusões sem comprovação. Para ele, o conhecimento científico básico é fundamental para evitar interpretações equivocadas. Questionado sobre o futuro da ufologia e as dúvidas que ainda permanecem incompreendidas, Amorim propõe uma analogia após décadas de pesquisas voltadas ao tema.
A série “Esquadrão UFO” estreou no dia 25 de abril, com exibição semanal no canal History. O episódio sobre o fenômeno ocorrido em Caxias do Sul irá ao ar no sábado, dia 16 de maio, a partir das 19h45. O diretor Léo Sassen destaca a participação do público, que pode enviar registros para análise em futuras temporadas, ampliando o alcance e a interação do projeto.
Entre certezas e dúvidas, o fato é que os céus continuam despertando perguntas. E, enquanto respostas definitivas não chegam, acontecimentos como o de Caxias do Sul seguem fomentando um dos maiores mistérios da humanidade.
