Sem perceber, você produz cerca de 1kg de lixo por dia, seja ele orgânico ou reciclável. Segundo dados da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (ABREMA), moradores da Região Sul geram, em média, 700g diárias, abaixo da estimativa do Banco Mundial, que aponta produção de até 2,5 quilos por habitante em grandes centros urbanos. Não é pouca coisa, principalmente quando menos de 10% desse material é reciclado. Talvez por isso uma expressão faça cada vez mais sentido: “estamos enterrando dinheiro”.
Em Caxias do Sul, a Codeca recolhe diariamente 400 toneladas de lixo orgânico e 100 toneladas de recicláveis. E é justamente aí que começa um problema de presente — e também de futuro. O presidente da Cooperativa Paz e Bem, Tiago Pavelski, afirma que apenas 50% do material recebido para reciclagem é efetivamente aproveitado.
O que chega às cooperativas impressiona até quem pouco conhece o setor: papel higiênico, fraldas, absorventes, roupas, calçados e restos de comida. Parte do problema pode estar ligada à conteinerização na área central, onde catadores reviram resíduos em busca de materiais com maior valor comercial e, muitas vezes, acabam misturando sacos do orgânico com o seletivo. A outra explicação é mais ampla: a dificuldade da população em separar corretamente o lixo.
Ainda há muito espaço para avanço. A falta de informação — e, em alguns casos, de interesse pelo tema — dificulta o trabalho de toda a cadeia da reciclagem. Mesmo em 2026, diversos materiais ainda geram dúvidas sobre descarte e destinação correta. O coletivo Caxias Lixo Zero realiza ações periódicas e encontra esse cenário na prática. Victoria Mello, uma das organizadoras da ONG, reforça esse diagnóstico.
Se, por um lado, os contêineres acumulam lixo espalhado ao redor, por outro, basta sair da região central para encontrar pontos de descarte irregular. O município já contabilizou 800 lixões clandestinos, e a limpeza tem custo elevado. Segundo o secretário municipal do Meio Ambiente, Ramon Sirtoli, a prefeitura gastou mais de R$ 2 milhões na retirada desse material. O programa Limpa Caxias aposta agora em monitoramento por câmeras e aplicação de multas, que podem chegar a R$ 7 mil.
Os próximos passos passam por modernização e revisão do modelo de gestão desejado para Caxias do Sul. A Codeca atua em diferentes frentes para melhorar o atendimento à população, começando pelos contêineres, alvo frequente de reclamações. O diretor de Operações, Ângelo Barcarolo, lembra que o sistema tem mais de 20 anos e precisa de atualização. Além dos catadores, existem os chamados atravessadores, que vêm de outras cidades, espalham resíduos e afetam diretamente o trabalho da coleta. A expectativa é de que, ainda neste ano, o governo municipal avalie novos modelos de contêineres.
A descentralização dos ecopontos também está em discussão, com o objetivo de ampliar as opções de descarte para materiais volumosos. Atualmente, o município conta com três pontos de recebimento para resíduos específicos. Barcarolo destaca que a proposta é aproximar essa estrutura das 12 recicladoras cadastradas em Caxias do Sul.
As mesmas reflexões aplicadas ao lixo seco também precisam alcançar os resíduos orgânicos. Existem alternativas capazes de reduzir o volume encaminhado ao aterro sanitário, e algumas cidades já avançam nesse caminho. Florianópolis, por exemplo, mantém a meta de se tornar uma cidade lixo zero até 2030, com parte significativa do material orgânico destinada à compostagem. Victoria Mello reforça a necessidade de rever conceitos em Caxias do Sul — mudanças que podem inclusive reduzir gastos públicos com uma prática aparentemente simples: enterrar lixo.
O tema está longe do fim e ainda há muito a ser discutido. Desde a concepção dos materiais — muitos deles sem valor de reciclagem, como embalagens multicamadas — até a destinação final. Sem reaproveitamento e sem possibilidade de transformação em novos produtos, esses materiais seguem diretamente para o aterro. O lixo deixou de ser apenas aquilo que desaparece no caminhão da coleta. Hoje, envolve economia, meio ambiente, saúde pública e planejamento urbano. O que Caxias decidir fazer — ou deixar de fazer — com ele também ajudará a definir o futuro da cidade.
