A crescente valorização da magreza extrema, impulsionada por tendências nas redes sociais e pela popularização das chamadas canetas emagrecedoras, tem intensificado o debate sobre saúde, estética e padrões corporais. Enquanto o uso desses medicamentos cresce no Brasil, especialistas divergem sobre os impactos físicos e emocionais associados à prática.
Originalmente desenvolvidas para o tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade, as medicações da classe GLP-1 passaram a ser utilizadas também com finalidade estética, principalmente entre pessoas sem diagnóstico clínico relacionado ao sobrepeso.
Diante do aumento da procura, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já emitiu alertas sobre o uso indiscriminado desses medicamentos, destacando a necessidade de prescrição médica e acompanhamento profissional. Entre os efeitos adversos registrados estão pancreatite, alterações gastrointestinais e complicações metabólicas.
A discussão, no entanto, vai além dos riscos físicos e envolve também questões relacionadas à pressão estética e aos impactos psicológicos provocados pelos padrões de beleza.
Para a psicóloga Vialana Ester Salatino, a retomada da valorização da extrema magreza representa um movimento social associado à imposição histórica de padrões corporais, principalmente sobre as mulheres.
Segundo ela, o fenômeno é impulsionado por redes sociais, referências midiáticas e pela constante exposição a imagens idealizadas.
“A sociedade estabelece padrões para definir o que é considerado belo. Hoje, a magreza voltou a ser associada a sucesso, status e aceitação”, afirma.
A especialista avalia que a busca incessante pelo corpo ideal pode gerar sofrimento emocional, baixa autoestima e favorecer transtornos alimentares, como anorexia e bulimia.
Vialana também alerta para o risco do uso das canetas emagrecedoras como solução rápida para inseguranças relacionadas à aparência.
“Muitas vezes, a pessoa não está tratando a causa da relação emocional com a comida, apenas tentando silenciar os sintomas”, observa.
Ainda de acordo com a psicóloga, o debate precisa considerar os impactos sociais da pressão estética, especialmente em um cenário de crescente exposição digital.
Em contraponto, a médica Dra. Neiva Regina Rosa Milani, especialista em Homeopatia, com pós-graduação em Ortomolecular e Medicina Antienvelhecimento, faz uma crítica centrada nos efeitos fisiológicos e metabólicos provocados pelo uso prolongado das medicações.
Segundo a médica, as canetas atuam estimulando hormônios como a insulina e o GLP-1, responsável pela sensação de saciedade. Apesar da perda de peso inicial, ela avalia que o uso contínuo pode gerar desequilíbrios importantes no organismo.
“Tudo o que força a fisiologia natural do corpo pode trazer consequências no médio e longo prazo”, afirma.
Na avaliação da especialista, o aumento dos casos de obesidade está diretamente relacionado às mudanças no padrão alimentar das últimas décadas, marcadas pelo consumo de alimentos ultraprocessados e refinados.
Ela sustenta que picos frequentes de glicose e insulina favorecem inflamações metabólicas, acúmulo de gordura e resistência à insulina.
Neiva também alerta para possíveis efeitos associados ao uso contínuo das canetas, como efeito rebote, desnutrição, perda muscular e alterações na regulação natural da fome.
“A pessoa perde peso rapidamente, mas, sem mudança alimentar e hábitos saudáveis, tende a recuperar o peso posteriormente”, explica.
A médica defende que tratamentos relacionados ao emagrecimento priorizem alimentação equilibrada, atividade física e acompanhamento multidisciplinar.
Apesar das divergências de abordagem, as especialistas concordam sobre a necessidade de cautela no uso das canetas emagrecedoras e reforçam a importância do acompanhamento médico.
O cenário atual evidencia que o debate sobre emagrecimento vai além da estética e envolve questões psicológicas, sociais e fisiológicas.
Com a crescente popularização dessas medicações, especialistas alertam para os riscos da banalização do uso e defendem decisões baseadas em informação qualificada e avaliação individualizada.
Regulamentação
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o Ozivy, a primeira caneta emagrecedora de fabricação nacional (laboratório EMS). O medicamento deve chegar às farmácias no segundo semestre com preço até 30% mais acessível que o original. Paralelamente, a Polícia Civil deflagrou uma grande operação para reprimir a venda ilegal e a adulteração desses remédios em cinco estados
