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Especial | Do lixo ao combustível: Projeto na Serra Gaúcha transforma resíduos sólidos em hidrogênio de baixo carbono

  • Jonatan Mombach
  • 29/08/2026
Foto: Pixabay

Todos os dias, toneladas de resíduos sólidos urbanos são encaminhadas para aterros sanitários no Rio Grande do Sul. O destino é considerado adequado dentro das regras ambientais, mas representa altos custos para os municípios e mantém na cadeia resíduos que ainda podem ser aproveitados.

Na Serra Gaúcha, uma iniciativa busca mudar essa lógica. Uma parceria entre a Universidade de Caxias do Sul, empresas do setor privado e a Secretaria do Meio Ambiente do estado do Rio Grande do Sul busca transformar o que hoje é considerado lixo em matéria-prima para a produção de hidrogênio de baixo carbono, combustível que pode ser utilizado, entre outras aplicações, no transporte e na indústria. 

A tecnologia começou a ser desenvolvida a partir de uma necessidade da própria indústria. A Rodoplast, empresa sediada em Vacaria, que atua há mais de três décadas na produção de peças plásticas, acumulava resíduos que não podiam mais ser reaproveitados no processo produtivo por estarem contaminados com diferentes tipos de polímeros. Foi nesse contexto, segundo Marcelo Dondé, gerente de relacionamento da empresa, que surgiu a Ambientalplast e a parceria com pesquisadores da Universidade de Caxias do Sul. 

O caminho encontrado foi a pirólise, processo que permite transformar resíduos em diferentes produtos e que, agora, está sendo aplicado em uma escala maior. No projeto desenvolvido em Vacaria, o resíduo sólido urbano (RSU) passa primeiro por uma preparação para ser transformado em biomassa e posteriormente peletizado. Esse material é levado ao pirolisador, onde são gerados óleo, gás e carvão, como destaca o professor Marcelo Godinho, coordenador do Laboratório de Energia e Bioprocessos (LEBio) da UCS. 

Parte do óleo segue então para uma etapa chamada reforma a vapor, que permite obter o hidrogênio de baixo carbono. A proposta é fechar o ciclo dentro da própria região e transformar o resíduo coletado nos municípios em combustível para novos usos.

A implantação do projeto será feita em etapas, conforme Dondé. A preparação da biomassa e a pirólise estão previstas para esta primeira fase, que deve iniciar até outubro, enquanto a produção de hidrogênio deve ter seu pontapé inicial em janeiro de 2027, sendo concluída até o final do ano. 

A planta-piloto foi dimensionada a partir da quantidade de resíduos produzidos em Vacaria. O município gera aproximadamente 35 toneladas de resíduos sólidos urbanos por dia. Depois da transformação em biomassa e da retirada da água, cerca de 17 toneladas e meia seguem para a pirólise. A expectativa é produzir aproximadamente dois mil litros de óleo por dia, dos quais cerca de 30% serão destinados à produção de hidrogênio. 

A iniciativa também se diferencia dos demais projetos selecionados pelo Governo do Estado no primeiro edital de subvenção econômica para produção de hidrogênio. Enquanto outras empresas utilizam a eletrólise da água, o projeto desenvolvido pela Rodoplast em parceria com a UCS aposta na pirólise de resíduos sólidos urbanos. De acordo com Isa Osterkamp, secretária executiva do programa Hidrogênio Verde RS, a iniciativa é considerada pioneira no segmento e um passo importante para a transição energética. 

Representantes da UCS, Rodoplast e Ambientalplast com o governador na assinatura do contrato. Foto: João Pedro Rodrigues/Secom

O projeto recebeu R$ 30 milhões em subvenção econômica do Governo do Estado. O objetivo é acelerar tecnologias capazes de contribuir para a descarbonização da economia gaúcha. A iniciativa faz parte de uma estratégia que começou a ser estruturada pelo Rio Grande do Sul ainda no início desta década e ganhou um novo passo em 2025, com o primeiro edital voltado à implantação efetiva de projetos de hidrogênio de baixo carbono. 

A tecnologia, porém, ainda está longe de ser uma solução de prateleira. Segundo a secretária, o custo de produção ainda é o principal obstáculo para a expansão do hidrogênio de baixo carbono. O custo dos equipamentos e a necessidade de importar parte da estrutura utilizada na etapa final fazem com que o projeto dependa do investimento público para ser viabilizado neste momento.

Para Dondé, esse é também o principal desafio para que a experiência de Vacaria possa ser reproduzida em outros municípios. Além do desenvolvimento tecnológico, será necessário criar uma cadeia de produção, distribuição e abastecimento capaz de reduzir custos e permitir que o combustível seja utilizado em maior escala. 

A proposta não é apenas demonstrar que é possível produzir hidrogênio a partir do resíduo, mas também aperfeiçoar cada etapa do processo para que a tecnologia possa ganhar escala. O professor Marcelo Godinho ressalta que o processo além de reduzir os passivos dos resíduos sólidos, também possibilita ao poder público a utilização dos créditos de carbono, fazendo com que o lixo que antes apenas gerava custos, agora traga ganhos financeiros aos municípios. 

A expectativa dos envolvidos é que o projeto sirva como uma espécie de laboratório em escala real. Se a rota tecnológica for comprovada e os custos forem reduzidos, o modelo poderá ser adaptado a outras cidades que enfrentam o mesmo desafio para destinar seus resíduos. E o potencial não está restrito ao lixo urbano. A Ambientalplast já estuda a utilização de outros resíduos, como pneus, restos agrícolas, madeira e subprodutos da agroindústria.

Mais do que criar uma nova fonte de energia, a proposta tenta transformar um problema ambiental em oportunidade econômica. Ao retirar resíduos dos aterros, o município reduz a necessidade de destinação e pode ainda abrir novas possibilidades de receita, como os créditos de carbono. Para Isa Osterkamp, a produção e utilização do hidrogênio de baixo carbono com o incentivo de políticas públicas e maior receptividade da indústria é um caminho sem volta.  

Em Vacaria, o projeto ainda está em fase de implantação. Mas a aposta dos pesquisadores, da iniciativa privada e do Governo do Estado é que a experiência pioneira da Serra Gaúcha possa, no futuro, se transformar em uma alternativa para outros municípios brasileiros. 

Tags:
  • COMBUSTÍVEL
  • fontes de energia limpa
  • GOVERNO DO ESTADO
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