A 42ª Feira do Livro de Caxias do Sul se encerra neste domingo e deve totalizar mais de 100 mil visitantes que reservaram parte do seu tempo para comparecer à Praça Dante Alighieri, no centro da cidade, ao longo dos 16 dias de programação. Por mais que o foco seja aproximar as livrarias do público, de forma mais acessível, no coração do município, o evento não se sustentaria apenas com as bancas instaladas em torno do chafariz. A programação cultural e, principalmente, a estratégia de atrair menores de 18 anos são pontos-chave para entender como tanta gente ainda nutre o gosto pelo evento.
Nestes 16 dias, a organização preparou mais de 300 atividades para compor a programação, do início da manhã até o cair da noite. Esse não é um planejamento fácil, porque envolve a administração dos valores arrecadados e dos cachês destinados às atrações mais famosas, além de uma curadoria daquilo que é produzido na cidade e combina com a proposta da Feira. Segundo Cássio Immig, um dos organizadores do evento, existe um longo processo de análise sobre escritores em alta, premiações literárias e a tentativa de entender quais nomes geram maior atratividade ao público caxiense. Ao mesmo tempo, os artistas locais também precisam estar alinhados à proposta do evento.
Nesse contexto, a programação da Feira buscou criar oficinas e discussões sobre a construção da sociedade, tema que também está presente na literatura. Sem uma linha ideológica definida, houve momentos para que os participantes pudessem conhecer e debater autores que abordam questões estruturais da vida coletiva. A patrona da Feira em 2026, Adriana Antunes, aponta que cada livro abre um mundo diferente para o leitor. Mesmo as obras de ficção podem levantar questionamentos que, muitas vezes, passam despercebidos.

Ainda assim, para quem acompanha diariamente a programação deste ano, é visível uma estratégia da organização: atrair o público jovem. Aqui, pesam dois pontos. O primeiro é a disponibilidade das escolas para comparecer à Praça durante o horário comercial. O segundo é a necessidade de formar novos leitores. Para isso, diversos espaços e atividades foram criados ao longo dos anos e passaram a ganhar mais atenção. Cássio Immig reforça a importância desse movimento de atender ao público infantojuvenil, muito além das oito bancas exclusivas para obras específicas.
Trabalhar com o público infantil exige uma performance que prenda a atenção de, muitas vezes, 20 ou 30 crianças em uma história desconhecida e que depende do imaginário. O Espaço do Leitor foi criado para proporcionar essa conexão mais próxima, em que a contação de histórias deixou para trás a distância entre o palco principal e as cadeiras. Aline Luz, responsável pelo local, aponta para a magia que essa aproximação criou. Nos fins de semana, não são apenas os personagens das páginas literárias que tomam conta do lugar, mas também a interação entre pais e filhos, que acaba gerando um importante ponto de ligação.

A contação de histórias pode parecer algo distante para quem está, muitas vezes, envolvido com a burocracia de números e planilhas. Ainda assim, é um trabalho fundamental para compor o Espaço do Leitor e contribuir para a formação de futuros adultos interessados pelos livros. Dóris Laroque, multiartista, ingressou nesse universo a partir da maternidade. Utilizou seus conhecimentos como atriz para contar histórias de livros ao filho e, hoje, faz da atividade sua profissão. A Feira cumpre o papel de apresentar essa arte a um público maior.
É nessa aproximação que o presidente do Instituto Quindim, Volnei Canônica, acredita estar o grande diferencial de uma Feira do Livro. A proximidade entre crianças, escritores e ilustradores mostra que sonhos são possíveis. Não apenas aqueles presentes na realidade fantasiosa das páginas de um livro infantil, mas também a possibilidade de criar um vínculo com quem escreveu tudo aquilo. São pontos importantes na formação de uma sociedade.
Para além da conexão dos leitores com as histórias, o entretenimento da Feira acontece de muitas formas. O evento abre espaço tanto para artistas profissionais quanto para produções escolares. Todos os dias, escolas apresentam aquilo que é desenvolvido dentro das salas de aula, com destaque para a música. O Palco da Feira recebeu bandas de diversas escolas municipais e, diga-se, com apresentações que vão além da música marcial ensaiada para os desfiles de 7 de Setembro. Isso faz parte do programa de Ações Educativas Complementares da Secretaria Municipal da Educação. O coordenador do projeto, Adriano Zanandrea, afirma que o palco da Praça Dante é importante na formação dos alunos, não só pelo frio na barriga de se apresentar para o público externo, mas também pela oportunidade de mostrar tudo o que fazem dentro do ambiente escolar.
Existe também o grupo que precisa trabalhar de manhã, à tarde e à noite. Os Vivandeiros da Alegria costuram os intervalos entre as apresentações no palco principal e talvez sejam os mais queridos dos frequentadores. Cabe a eles criar dinâmicas para cinco, dez ou mais de 50 pessoas que param em frente ao palco principal. Não é tão fácil quanto parece. Roger Castro, um dos responsáveis pelo grupo, destaca que a estratégia exige raciocínio rápido para que o entretenimento não interfira na atração seguinte. Além disso, é preciso envolver crianças, professores e visitantes em geral.

Ao fim e ao cabo, tudo isso é cultura viva. Como bem diz a nossa patrona, Adriana Antunes, a Feira cumpre um papel maior de aproximar os caxienses de sua principal praça. Ocupar o território, conviver em harmonia, sorrir e descobrir novos mundos. Não é apenas um evento anual, mas cidadania na prática.
A 42ª Feira do Livro de Caxias do Sul se encerra neste domingo. Mas a edição de 2027 começa a ser construída já no dia seguinte. Afinal, mais do que comercializar livros, a Feira transforma a Praça Dante Alighieri em um espaço de encontros, descobertas e convivência. Durante 16 dias, a literatura divide o protagonismo com a música, o teatro e tantas outras manifestações culturais. E, quando as bancas forem desmontadas, fica aquilo que não pode ser medido em números: as histórias que despertaram a imaginação, os vínculos criados e as sementes plantadas nos leitores do futuro. Porque uma Feira do Livro não termina quando a Praça fica vazia. Ela continua em cada história que começa a ser lida.
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