A figura do herói no Rio Grande do Sul foi fortemente moldada a partir da Revolução Farroupilha. Nomes como Bento Gonçalves, Giuseppe e Anita Garibaldi, David Canabarro, foram alçados a símbolos máximos da coragem e do ideal de liberdade, ocupando praças, nomes de rua e livros didáticos. De acordo com o historiador da Câmara Municipal de Caxias do Sul, Eduardo Reis, essa forma de visão heróica era a mais comum no Brasil da época, influenciada pelo pensador francês Augusto Comte com a doutrina do positivismo. A história é contada a partir dos relatos oficiais.
Valente, livre, leal ao seu pago. O arquétipo do gaúcho. A questão, no entanto, é entender até que ponto esse retrato corresponde à realidade histórica do peão, do estancieiro e do homem do campo, e o quanto foi uma construção idealizada no século XX. O tradicionalismo teve papel central nessa elaboração. Conforme o pesquisador, o tradicionalismo manteve os heróis que conta a história, mas também cultiva o heroísmo através da tradição oral e do folclore, sem necessariamente precisar de comprovação histórica.
Se os heróis gaúchos são quase sempre homens a cavalo, a heroína riograndense também era líder de batalha, Anita Garibaldi. Quanto a se pensar sobre novas heroínas gaúchas, Reis explica que a academia não se preocupa em reconstruir esses personagens, mas sim em pesquisar histórias de mulheres que contribuem socialmente para o Rio Grande do Sul.
Por muito tempo, personagens como os Lanceiros Negros, traídos e mortos em Porongos, e Sepé Tiaraju, líder guarani morto nas Guerras Guaraníticas, foram tratados como notas de rodapé. Hoje, a historiografia tem feito um movimento de revisão, retirando essas figuras da condição de coadjuvantes e colocando-as no centro da narrativa como protagonistas da formação do Rio Grande do Sul. No caso dos Lanceiros Negros, em especial, como destaca Eduardo Reis, os pesquisadores buscam mostrar que o negro não foi apenas um escravo na história gaúcha, mas também alguém que lutou na mais importante batalha desse território.
O historiador Eduardo Reis acredita que na contemporaneidade é difícil criar-se uma nova figura heróica, porém, numa história riograndense pós-revolução, existiram outros eventos importantes como a Revolução Federalista e os movimentos do governador Leonel Brizola.
Diante de tantos nomes esquecidos nos arquivos e nas salas de aula, fica o exercício final de resgate. Se fosse possível incluir um novo herói nos livros escolares do Rio Grande do Sul, qual figura mereceria esse reconhecimento e que lacuna ela ajudaria a preencher na forma como os gaúchos contam a própria história? Eduardo Reis cita Júlio de Castilhos, Júlia Malvina Tavares, talvez não como heróis, mas como personagens de destaque histórico.




