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Reportagem especial: o país do futebol mora longe do estádio

  • Noriana Behrend
  • 18/07/2026
Dunga ergue a taça da Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos. Foto: Getty Images

“Para construir um time de sucesso, você precisa dar tempo para que as fundações sejam estabelecidas. A paciência é uma virtude crucial na liderança.” Alex Ferguson | ex-treinador de futebol escocês

O ano era 1994.

Em campo estavam Romário, Bebeto, Tafarel e, claro, o velho Zagalo comandando aquela seleção que parecia destinada a devolver ao Brasil uma alegria que andava desaparecida.

Mas esta história não começa nos Estados Unidos.

Nem em um estádio lotado.

Ela começa em uma rua de chão batido no Norte do Brasil.

Eu tinha 11 anos.

Corria descalço por uma rua onde quase não passavam carros. Faltava asfalto. Faltava iluminação pública. Faltava energia elétrica quase todos os dias.

Mas nunca faltava esperança.

Naquele início de julho, a Copa do Mundo era uma espécie de milagre coletivo.

Enquanto meu pai ligava uma televisão com menos de 14 polegadas, preto e branco, na bateria do caminhão —a cena, hoje, parece quase improvável, na época, parecia absolutamente normal — os vizinhos chegavam trazendo cadeiras, bancos, crianças no colo e uma confiança inabalável de que a taça voltaria para casa.

Lembro, principalmente, do hino nacional sendo cantado aos gritos.

Lembro dos rostos pintados.

Lembro das bandeiras improvisadas.

Lembro da sensação de que o país inteiro respirava, ou melhor, sonhava junto.

Anos depois, conversando com o educador físico Rafael Pimentel, descobri que eu não era a única pessoa carregando esse tipo de memória afetiva.

Quando perguntei sobre sua Copa inesquecível, ele voltou para 2002.

Voltou para as madrugadas.Para os despertadores tocando às três da manhã.Para os jogos assistidos entre o sono e a ansiedade.

Enquanto eu lembrava de uma televisão ligada na bateria de um caminhão, Rafael lembrava do esforço coletivo de acordar de madrugada para ver a Seleção.

Mudavam os cenários.

Mas, a emoção era a mesma.

Talvez seja por isso que a Copa continue sendo um fenômeno tão poderoso.

Ela não pertence apenas ao futebol.

Pertence à memória.

Foto: Arquivo pessoal/Noriana Behrend. Na imagem, ex-colegas de trabalho de noriana (romildo, elton e Regiane) na emissora rádio pomerana fm de santa maria de jetibá na copa de 2014

Às vezes, me pergunto em que momento perdemos aquele patriotismo quase infantil.

Em que curva da estrada ficaram Pelé, Garrincha, Zico e tantos outros personagens que pareciam capazes de parar o país inteiro.

Rafael Pimentel tem uma teoria.

Segundo ele, a relação mudou.

Os ídolos migraram dos gramados para as telas dos celulares.

O futebol passou a disputar espaço com redes sociais, vídeos curtos, influenciadores e algoritmos.

Talvez seja verdade.

Mas existe algo curioso acontecendo.

A Copa de 2026 nem bem tinha começado….

E o brasileiro já tinha entrado em campo.

Tinha bolão no trabalho.

Tinha discussão sobre convocação nos grupos da família.

Tinha especialista surgindo em cada esquina.

E, principalmente, tinha gente correndo atrás das figurinhas que faltavam para completar o álbum.

Porque o Brasil já não vive apenas de samba e futebol.

Hoje também vive de figurinhas repetidas.

Trocas improváveis.

Colecionadores obstinados.

E da busca quase mística pela figurinha que nunca aparece.

foto: tales armiliato

Foi justamente nesse universo que Rafael Pimentel reapareceu na minha reportagem.

Colecionador de álbuns desde 2010, ele me contou que ainda precisava encontrar centenas de figurinhas para completar sua coleção.

Mas o que mais chamou minha atenção não foi a quantidade.

Foi a rede de encontros criada ao redor delas.

Rafael trocava figurinhas com amigos, colegas da academia, pais, filhos e desconhecidos que acabam se tornando conhecidos.

Foi aí que a psicóloga Sabrina Rugeri entrou em campo.

Enquanto muita gente vê apenas um produto da indústria esportiva, Sabrina vê um fenômeno social.

Segundo ela, o álbum da Copa está promovendo algo que nenhuma tecnologia conseguiu substituir completamente: o encontro.

As crianças voltaram a conversar.

Aprenderam a negociar.

Aprenderam a esperar.

Aprenderam que nem tudo acontece na velocidade de um clique.

A figurinha repetida virou motivo para uma amizade.

A figurinha rara virou exercício de paciência.

A figurinha faltante virou uma pequena aula sobre frustração.

Talvez seja por isso que os pontos de troca estivessem parecendo arquibancadas emocionais.

Não era apenas futebol.

Era convivência.

Era pertencimento.

Era memória compartilhada.

Sabrina Rugeri observou outra coisa interessante.

Os pais pareciam tão empolgados quanto os filhos.

E talvez estivessem mesmo.

Porque, enquanto ajudavam a colar figurinhas, também colavam pedaços da própria infância.

Reencontravam versões antigas de si mesmos.

Reviviam Copas passadas.

Reviviam ruas que já não existem.

Reviviam televisões cercadas por vizinhos.

Foto: Arquivo pessoal

Foi nesse contexto que surgiu outro personagem desta história: o pequeno Matheus Serafini Benites, de apenas 13 anos. Enquanto colecionava figurinhas e acompanhava cada partida, ele também construía memórias afetivas em seu universo particular. Autista e apaixonado por futebol, Matheus encontrava no campeonato muito mais do que um esporte — encontrava um espaço de pertencimento, onde podia compartilhar emoções, torcer e celebrar como qualquer outra criança.

Quando pensi nisso, imediatamente voltei para aquela rua de chão batido em Rondônia.

Afinal, a melhor lembrança que tenho de 1994 não é de um gol.

É de uma comunidade inteira reunida ao redor de uma televisão.

É a sensação de estar junto.

Foi justamente pensando nisso que comecei a conversar com pessoas que vivem o futebol longe das câmeras.

E como toda boa reportagem gonzo, a pauta resolveu ganhar vida própria.

Foto: arquivo pessoal

Primeiro apareceu Railson Vieira.

Goleiro.

Baiano.

Andarilho profissional do futebol brasileiro.

Daqueles sujeitos que conhecem mais alojamentos do que hotéis.

Mais rodoviárias do que aeroportos.

Mais despedidas do que comemorações.

Com apenas 12 anos, deixou a família para perseguir o sonho de ser jogador profissional.

Doze anos.

A idade em que muitos meninos ainda discutem quem será atacante e quem será goleiro na pelada da rua.

Foi ouvindo Railson Vieira que percebi uma verdade raramente mostrada nas transmissões esportivas.

O futebol vende o gol.

Mas quem vive dele aprende primeiro a conviver com a saudade.

Aniversários perdidos.

Datas comemorativas ausentes.

Mudanças constantes.

Novas cidades.

Novas camisas.

Novos sotaques.

Uma vida inteira carregada dentro de uma mala.

Foto: Freepik

Mas Railson não foi o único a me apresentar os bastidores do sonho.

Em outro momento da reportagem encontrei Diego Xau, treinador de goleiros da equipe profissional do Guarani.

Quando perguntei sobre suas lembranças de Copa do Mundo, ele não falou de estatísticas.

Falou de emoção.

Falou da defesa histórica de Marcos na final de 2002.

Falou de Tafarel.

Falou daquelas imagens que permanecem guardadas na memória de quem cresceu apaixonado por futebol.

Mas logo a conversa abandonou os gramados.

E entrou nos bastidores.

foto: arquivo pessoal

Diego Xau me contou sobre alojamentos improvisados.

Sobre passar frio.

Sobre dormir embaixo de arquibancadas.

Sobre cobertores molhados pela chuva.

Sobre salários atrasados.

Sobre a distância da família.

Sobre as dúvidas que aparecem quando o sonho demora para dar retorno.

Foi impossível não pensar em quantos profissionais do futebol atravessam exatamente esse mesmo caminho.

A televisão mostra a chegada.

Raramente mostra a travessia.

Segundo Diego, até chegar ao futebol que aparece na Série A, na Série B ou nas transmissões internacionais, existe uma estrada longa, cheia de espinhos e obstáculos.

Mais tarde conheci Josce Borges.

Ela não aparece nas escalações.

Não levanta troféus.

Não concede entrevistas coletivas.

Mas talvez conheça o futebol tão profundamente quanto muita gente que vive dele.

Josce é noiva de Diego Xau.

E me apresentou uma perspectiva que raramente aparece nas reportagens esportivas.

Enquanto os torcedores acompanham tabelas.

Ela acompanha voos.

Enquanto a torcida contava gols.

Ela contava dias para o próximo reencontro.

Enquanto os clubes disputavam campeonatos.

Ela disputava espaço com a saudade.

As comemorações aconteciam por videochamada.

Os abraços precisavam esperar.

As datas especiais precisavam se adaptar aos calendários do futebol.

Foi impossível não pensar que talvez os verdadeiros campeões da resistência emocional estejam fora das quatro linhas.

Mas existe outro adversário permanente do futebol.

As lesões.

Todo torcedor teme perder um craque para o departamento médico.

Agora imagine ser o craque.

Imagine passar meses vendo os companheiros treinarem enquanto você reaprende movimentos básicos.

Foi então que surgiu Priscila Zanon Candido.

Fisioterapeuta esportiva.

Mestre em Reabilitação Esportiva.

Uma profissional acostumada a enxergar o futebol por dentro.

Priscila disse em entrevista ao podcast Ciência da Bola algo que parece simples, mas não é: uma lesão nunca é apenas uma lesão.

Existe o músculo.

Existe o ligamento.

Mas também existe o sono.

A alimentação.

A ansiedade.

A pressão.

A comunicação com a equipe.

A saúde mental.

Tudo entra em campo junto com o atleta.

Segundo ela, as lesões musculares continuam sendo as mais frequentes no futebol.

Mas as lesões ligamentares, especialmente, no ligamento cruzado anterior do joelho, podem afastar um jogador por nove meses ou mais.

Tempo suficiente para transformar qualquer calendário em eternidade.

Foto: Bruna Schneider

Foi nesse momento que conversei com o médico radiologista Harley de Nicola, professor doutor do Departamento de Radiologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo e superintendente médico da Fundação Instituto de Pesquisa e Estudo de Diagnóstico por Imagem.

Enquanto a televisão mostra atletas cada vez mais rápidos, mais fortes e mais preparados, Harley lembrava de algo que quase nunca aparece nas transmissões: nunca se exigiu tanto fisicamente dos jogadores.

Hoje, eles disputam mais partidas, descansam menos, correm mais, mudam de direção em frações de segundo e enfrentam um esporte cada vez mais explosivo. O resultado aparece, inevitavelmente, no departamento médico.

Foi ouvindo Harley de Nicola que percebi que o futebol moderno trava uma batalha silenciosa contra o próprio corpo. E que, nessa disputa, a tecnologia tornou-se uma espécie de árbitro invisível.

Mas os exames não servem apenas para encontrar o problema. Eles também ajudam a responder a pergunta mais difícil de todas: o atleta está realmente pronto para voltar? Segundo Harley, a decisão depende de um conjunto de fatores.

Foi ouvindo Priscila Zanon Candido que percebi algo curioso.

Talvez o departamento médico seja um dos lugares mais humanos do futebol.

Porque ali não existe torcida.

Não existe manchete.

Não existe gol.

Existe espera.

Existe reconstrução.

Existe paciência.

Ela também falou sobre tecnologia.

Sobre softwares que monitoram sono, fadiga, recuperação física e indicadores de risco.

O objetivo parece impossível.

Identificar a lesão antes que ela aconteça.

Mas talvez o futebol moderno seja exatamente isso.

Uma tentativa permanente de vencer adversários invisíveis.

Naquele momento lembrei novamente de Sabrina Rugeri.

Ela havia dito que o público costuma enxergar apenas a parte iluminada do esporte.

Os títulos.

As medalhas.

Os contratos.

Os holofotes.

Mas existe uma realidade inteira acontecendo nos bastidores.

Uma rotina de disciplina.

Renúncias.

Pressão.

Cobrança.

Solidão.

E, muitas vezes, sofrimento silencioso.

Segundo Sabrina, uma lesão não afeta apenas músculos e articulações.

Afeta identidades.

Afeta sonhos.

Afeta projetos de vida.

Exige resiliência quando o corpo não acompanha à vontade.

Exige paciência quando a carreira parece estacionada.

Ao final de todas essas conversas, voltei a pensar no álbum da Copa.

Nas figurinhas difíceis.

Nas repetidas.

Nas que nunca aparecem.

A carreira no futebol parece exatamente isso.

Alguns recebem logo de cara as figurinhas mais raras.

Outros passam décadas tentando completar os espaços vazios.

Mas todos continuam abrindo pacotinhos.

Treino após treino.

Viagem após viagem.

Cidade após cidade.

Temporada após temporada.

Acreditando que a próxima oportunidade pode ser justamente aquela que faltava.

Talvez seja por isso que o futebol continue fascinando tanta gente.

Porque nunca foi apenas sobre gols.

É sobre persistência.

Sobre saudade.

Sobre recomeços.

Sobre famílias esperando em aeroportos.

Sobre psicólogos tentando compreender emoções.

Sobre fisioterapeutas reconstruindo sonhos.

Sobre treinadores enfrentando o frio de alojamentos esquecidos.

Sobre goleiros que deixaram a infância cedo demais.

Sobre colecionadores que continuam acreditando na próxima figurinha.

E, no fundo, é sobre todos nós.

Tentando completar nossos próprios álbuns.

Pacotinho após pacotinho.

Campo após campo.

Cidade após cidade.

Até o apito final.

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