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Uso excessivo de canetas emagrecedoras ampliam debate sobre distorção de imagem

  • Noriana Behrend
  • 04/06/2026
Foto: Receita Federal/divulgação

A crescente valorização da magreza extrema, impulsionada por tendências nas redes sociais e pela popularização das chamadas canetas emagrecedoras, tem intensificado o debate sobre saúde, estética e padrões corporais. Enquanto o uso desses medicamentos cresce no Brasil, especialistas divergem sobre os impactos físicos e emocionais associados à prática.

Originalmente desenvolvidas para o tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade, as medicações da classe GLP-1 passaram a ser utilizadas também com finalidade estética, principalmente entre pessoas sem diagnóstico clínico relacionado ao sobrepeso.

Diante do aumento da procura, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) já emitiu alertas sobre o uso indiscriminado desses medicamentos, destacando a necessidade de prescrição médica e acompanhamento profissional. Entre os efeitos adversos registrados estão pancreatite, alterações gastrointestinais e complicações metabólicas.

A discussão, no entanto, vai além dos riscos físicos e envolve também questões relacionadas à pressão estética e aos impactos psicológicos provocados pelos padrões de beleza.

Para a psicóloga Vialana Ester Salatino, a retomada da valorização da extrema magreza representa um movimento social associado à imposição histórica de padrões corporais, principalmente sobre as mulheres.

Segundo ela, o fenômeno é impulsionado por redes sociais, referências midiáticas e pela constante exposição a imagens idealizadas.

“A sociedade estabelece padrões para definir o que é considerado belo. Hoje, a magreza voltou a ser associada a sucesso, status e aceitação”, afirma.

A especialista avalia que a busca incessante pelo corpo ideal pode gerar sofrimento emocional, baixa autoestima e favorecer transtornos alimentares, como anorexia e bulimia.

Vialana também alerta para o risco do uso das canetas emagrecedoras como solução rápida para inseguranças relacionadas à aparência.

“Muitas vezes, a pessoa não está tratando a causa da relação emocional com a comida, apenas tentando silenciar os sintomas”, observa.

Ainda de acordo com a psicóloga, o debate precisa considerar os impactos sociais da pressão estética, especialmente em um cenário de crescente exposição digital.

Em contraponto, a médica Dra. Neiva Regina Rosa Milani, especialista em Homeopatia, com pós-graduação em Ortomolecular e Medicina Antienvelhecimento, faz uma crítica centrada nos efeitos fisiológicos e metabólicos provocados pelo uso prolongado das medicações.

Segundo a médica, as canetas atuam estimulando hormônios como a insulina e o GLP-1, responsável pela sensação de saciedade. Apesar da perda de peso inicial, ela avalia que o uso contínuo pode gerar desequilíbrios importantes no organismo.

“Tudo o que força a fisiologia natural do corpo pode trazer consequências no médio e longo prazo”, afirma.

Na avaliação da especialista, o aumento dos casos de obesidade está diretamente relacionado às mudanças no padrão alimentar das últimas décadas, marcadas pelo consumo de alimentos ultraprocessados e refinados.

Ela sustenta que picos frequentes de glicose e insulina favorecem inflamações metabólicas, acúmulo de gordura e resistência à insulina.

Neiva também alerta para possíveis efeitos associados ao uso contínuo das canetas, como efeito rebote, desnutrição, perda muscular e alterações na regulação natural da fome.

“A pessoa perde peso rapidamente, mas, sem mudança alimentar e hábitos saudáveis, tende a recuperar o peso posteriormente”, explica.

A médica defende que tratamentos relacionados ao emagrecimento priorizem alimentação equilibrada, atividade física e acompanhamento multidisciplinar.

Apesar das divergências de abordagem, as especialistas concordam sobre a necessidade de cautela no uso das canetas emagrecedoras e reforçam a importância do acompanhamento médico.

O cenário atual evidencia que o debate sobre emagrecimento vai além da estética e envolve questões psicológicas, sociais e fisiológicas.

Com a crescente popularização dessas medicações, especialistas alertam para os riscos da banalização do uso e defendem decisões baseadas em informação qualificada e avaliação individualizada.

Regulamentação

A EMS anunciou que o preço da primeira caneta brasileira de semaglutida vai custar a partir de R$ 452. De acordo com a empresa, o medicamento chega ao mercado a partir do dia 15 de junho.  O anúncio foi feito em um evento fechado para pessoas ligadas ao mercado e médicos.

A versão brasileira do medicamento chega ao país com uma expectativa de aumentar o acesso ao tratamento, que pode custar cerca de R$ 1 mil por mês. A semaglutida é usada no tratamento da obesidade e sua inclusão no SUS já chegou a ser discutida, mas a demanda foi rejeitada justamente pelo alto custo.

Noriana Behrend
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