O Ano Internacional das Cooperativas, celebrado em 2025, chega em um momento de forte instabilidade econômica no país. O aumento do endividamento das famílias, a desaceleração do crédito tradicional e o impacto das recentes enchentes na Serra Gaúcha trouxeram novos desafios para a economia regional. Nesse cenário, o cooperativismo volta a ganhar protagonismo — e encontra na Serra um dos seus principais polos de força.
A região abriga a Sicredi Pioneira, primeira cooperativa de crédito da América Latina, fundada em 1902 em Nova Petrópolis. Nascida de um movimento que surgiu na Inglaterra do século XIX, em meio às desigualdades da Revolução Industrial, a lógica cooperativa sempre se mostrou eficiente em momentos de crise. No Brasil, ela foi introduzida pelo padre suíço Theodor Amstad, que implantou um modelo baseado em solidariedade, autogestão e distribuição justa dos resultados — valores que permanecem atuais.
Segundo a presidente da Sicredi Pioneira, Cristine Wedig de Col, essas raízes explicam a capacidade de resiliência do setor.
“Esse legado molda nossa identidade. O cooperativismo coloca as pessoas no centro das decisões e gera prosperidade que fica dentro da própria comunidade.”
Na Serra, a atuação da cooperativa vai além dos serviços financeiros. Em um período de reconstrução econômica e social, a Pioneira tem reforçado seu papel no apoio ao agronegócio, aos pequenos negócios, às famílias endividadas e a iniciativas de educação e inclusão financeira. A presença territorializada permite respostas rápidas e alinhadas às necessidades de cada município.
A força desse movimento também se reflete na confiança de empresas locais. O sócio-diretor da Prolar, Thiago Dalla Vecchia, destaca o impacto positivo da recém-firmada parceria com a cooperativa.
“O encontro de duas grandes marcas traz mais segurança aos síndicos e fortalece toda a comunidade. Essa parceria ajuda condomínios a planejarem melhorias com tranquilidade e confiança.”
Enquanto o sistema bancário tradicional enfrenta retração e maior cautela para concessão de crédito, o cooperativismo segue ampliando participação no mercado. Estudos recentes mostram que regiões com forte presença cooperativa apresentam melhores indicadores sociais, menor disparidade econômica e maior circulação de renda local. No Rio Grande do Sul, esse movimento é evidente. De acordo com Darci Hartmann, presidente do Sistema Ocergs,
“O cooperativismo cresce de forma consistente no estado, especialmente na Serra. É um modelo competitivo, rentável e essencial para o desenvolvimento das comunidades.”
Novo cenário regulatório pressiona instituições financeiras
Em 2025, o sistema financeiro também passou por mudanças relevantes. A nova legislação do programa Desenrola instituiu a portabilidade gratuita de encargos e limitou os juros a até 100% do valor original da dívida. A medida tende a reduzir receitas de instituições financeiras e pode restringir limites mais altos no crédito tradicional.
Apesar disso, a Sicredi Pioneira afirma que manterá sua política de responsabilidade e proximidade com o associado. Segundo Fábio Schmoekel, gerente de ciclo de crédito,
“Mesmo com a nova legislação, seguimos oferecendo limites adequados aos nossos associados. Atuamos de forma responsável e buscamos sempre negociações amigáveis para evitar o acúmulo de juros e garantir a saúde financeira de cada pessoa.”
A cooperativa segue praticando taxas inferiores às do mercado — como CDI + 0,80%, abaixo de 2% ao mês — além de adoção precoce de medidas preventivas para evitar o superendividamento.
Transparência ampliada amplia fiscalização e reforça governança
Outra mudança que impacta o setor é a nova exigência da Receita Federal para o envio de informações detalhadas sobre movimentações financeiras. A partir deste ano, operadoras de cartão e empresas de pagamento também precisam reportar transações relevantes, incluindo PIX acima de R$ 5 mil para pessoas físicas e R$ 15 mil para empresas.
O delegado da Receita em Caxias do Sul, Leandro Tessaro Ramos, explica que o objetivo é ampliar a conformidade tributária:
“A ideia é garantir maior conformidade entre o que é movimentado e o que é declarado. Não se trata de avaliar como o dinheiro é gasto, mas de assegurar consistência e transparência.”
Para cooperativas com histórico de governança sólida e proximidade com seus associados, o novo ambiente reforça sua credibilidade e o papel de referência em boas práticas financeiras.
Um modelo que cresce quando o contexto exige soluções coletivas
O cooperativismo prova mais uma vez que se fortalece justamente nos momentos de maior instabilidade. Diante dos desafios econômicos que o Brasil enfrenta — e da reconstrução que a Serra Gaúcha atravessa —, o modelo coopera para manter a economia ativa, preservar empregos, apoiar famílias vulneráveis e estimular o desenvolvimento local.
Em pleno Ano Internacional das Cooperativas, a Sicredi Pioneira reafirma sua missão de seguir conectada às comunidades da região, ampliando serviços, impulsionando projetos e preparando as novas gerações para um futuro mais colaborativo.
Num período em que a lógica individualista do sistema financeiro tradicional demonstra limites, o cooperativismo volta a se destacar como alternativa robusta, humana e capaz de enfrentar crises sem perder o foco central: as pessoas.
