O Rio Grande do Sul atravessou uma das maiores crises climáticas de sua história recente — e, diante de perdas bilionárias no campo, o seguro rural se consolidou como pauta prioritária para produtores, entidades do agronegócio e autoridades públicas. Enchentes, secas e eventos extremos que marcaram 2024 e 2025 provocaram danos severos nas principais cadeias produtivas do Estado, enquanto políticas de proteção financeira seguem insuficientes.
O resultado é um cenário de insegurança no campo, aumento no endividamento e dúvidas sobre a capacidade de recuperação de milhares de agricultores.
Cresce a pressão por fortalecimento do seguro rural
Em apresentação na CIC Caxias, o presidente do Conselho Diretor da Confederação Nacional das Seguradoras, Roberto Santos, afirmou que o mercado segurador projeta expandir em 20% a cobertura no país até 2030. A meta está diretamente ligada ao avanço de eventos extremos e ao aumento do risco climático, que, segundo ele, elevam inevitavelmente o custo das apólices.
“O preço do seguro é proporcional ao tamanho do risco”, afirmou. Apenas no Rio Grande do Sul, até julho, foram contabilizados 57.045 avisos de sinistros, somando R$ 5,6 bilhões em indenizações entre seguros agrícolas, residenciais e automotivos.
No campo, a demanda reprimida por proteção ficou evidente após as enchentes que devastaram lavouras inteiras. Atualmente, 6,25 milhões de hectares plantados contam com seguro no país — número considerado insuficiente diante do tamanho da produção nacional.
Bloqueio de recursos do PSR amplia crise no campo
A instabilidade no setor foi agravada pelo bloqueio de verbas do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR). O deputado federal Afonso Hamm (PP-RS) protocolou requerimento convocando o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, a prestar esclarecimentos.
O parlamentar alertou para o avanço do endividamento, as quebras de safra e o impacto psicológico causado pela falta de apoio institucional. Segundo ele, 28 produtores gaúchos tiraram a própria vida em 2025, número que acendeu um alerta entre entidades rurais.
Como vice-presidente da Comissão de Agricultura da Câmara, Hamm também pediu auditoria ao TCU e criticou as medidas anunciadas pelo governo federal, classificando-as como “paliativas e ineficazes”.
Municípios acumulam prejuízos e relatam dificuldades para indenizações
Em Caxias do Sul, as chuvas afetaram 90% do território municipal e provocaram perdas estimadas em R$ 85 milhões. Mais de 12 mil hectares sofreram erosão e danos no solo, afetando culturas de grãos, hortaliças e frutas.
O secretário municipal da Agricultura, Valmir Susin, aponta que a falta de um seguro agrícola universalizado impede a recuperação mais rápida das áreas danificadas. “Nem todas as propriedades terão acesso à indenização, mesmo diante de um evento extremo como o que enfrentamos”, afirmou.
Segundo ele, já há falta de hortaliças em feiras e mercados da região. Para evitar desabastecimento, a Ceasa de Caxias passou a adquirir produtos de outros estados.
As regiões de Vila Cristina, Santa Lúcia do Piaí e Vila Oliva estão entre as mais afetadas, somando ao menos 500 propriedades atingidas.
Estado defende fundo próprio para reduzir custo do seguro
No âmbito estadual, o secretário de Agricultura, Giovani Feltes, defendeu a criação de um fundo estadual de mitigação para reduzir o valor das apólices e trazer seguradoras de volta ao mercado gaúcho — muitas delas retraídas após sucessivas secas e enchentes.
Feltes avalia que, embora as perdas sejam severas, 80% da safra de arroz e 70% da soja já haviam sido colhidas antes dos temporais, o que preservou o abastecimento nacional.
O secretário também cobra políticas federais com juros reduzidos, entre 3% e 4% ao ano, para atender produtores endividados.
Importação de arroz gera reação do setor
Em meio ao caos climático, o governo federal anunciou a importação de até 1 milhão de toneladas de arroz pela Conab. A medida, prevista na MP 1.217/2024, foi criticada por entidades do setor e chegou a ser alvo de denúncias de irregularidades.
O economista Pedro de Cesaro classificou a decisão como “populista” e defendeu que o governo deveria ter priorizado a recuperação das rodovias estaduais para permitir o escoamento da produção local.
O Rio Grande do Sul responde por 70% do arroz produzido no país. Para lideranças do setor, a importação prejudica produtores e poderia ser substituída por investimentos diretos na recuperação das áreas afetadas.
Programas estaduais tentam reconstruir a agricultura familiar
Para atender agricultores de pequeno porte, o governo estadual lançou o Programa Terra Forte, que destina até R$ 30 mil por família para obras de recuperação de propriedades atingidas.
O presidente da Emater/RS, Luciano Schwerz, afirma que a iniciativa busca mudar a forma como o produtor convive com eventos extremos, fortalecendo a assistência técnica e redes de apoio. O programa avança por regiões da Serra e Vale do Taquari.
Seguro deve encarecer após onda de indenizações
O mercado de seguros projeta ajustes nos contratos e aumento nos valores cobrados. Após as enchentes, mais de 200 mil veículos foram danificados no Estado, gerando R$ 1,6 bilhão em indenizações.
Segundo especialistas, a alta frequência de eventos extremos levará à revisão das apólices de forma ampla — de automóveis a imóveis e propriedades rurais. A orientação é que segurados revisem coberturas e cláusulas de risco.
Seguro rural, de coadjuvante a elemento central
O conjunto das recentes catástrofes climáticas e a instabilidade das políticas públicas mostrou que o seguro rural deixou de ser apenas uma alternativa: tornou-se pilar da manutenção do agronegócio gaúcho.
Produtores, entidades e autoridades convergem em um ponto: sem subvenção federal, crédito acessível, atração de seguradoras e investimentos em adaptação climática, o Estado não conseguirá se reerguer — e o país não poderá garantir segurança alimentar de longo prazo.
A reconstrução do Rio Grande do Sul passa, necessariamente, por um seguro rural forte, acessível e estruturante.
