Falar sobre saúde mental ainda é, para muitos, atravessar um campo cercado por preconceitos. Em Caxias do Sul, no entanto, profissionais da área, gestores públicos e iniciativas da sociedade civil têm buscado romper esse estigma — ampliando o debate e, principalmente, o acesso ao cuidado.
O estigma que ainda afasta pacientes
Em entrevista à Rádio Caxias, no programa Persona Entrevista, o psiquiatra Dr. Marcelo Grings destacou que um dos maiores desafios da área ainda é a visão distorcida sobre a especialidade.
Segundo ele, há um imaginário equivocado de que o tratamento psiquiátrico se resume ao uso de medicamentos. O médico reforça que a psiquiatria moderna trabalha de forma integrada, considerando fatores emocionais, sociais e biológicos, e que o acompanhamento multidisciplinar é essencial para a evolução do paciente.
Grings também chama atenção para o impacto do preconceito: muitas pessoas deixam de buscar ajuda por medo de serem rotuladas, o que pode agravar quadros que, em muitos casos, têm tratamento eficaz.
Uma demanda crescente e visível
A alta procura por atendimento em saúde mental também foi evidenciada pela Secretaria Municipal da Saúde de Caxias do Sul, em reportagem da Rádio Caxias sobre a parceria com o Instituto Amor em Cuidar.
Conforme dados divulgados pela pasta, mais de 3 mil adultos e cerca de 500 crianças aguardam consulta psiquiátrica, enquanto a fila por psicoterapia ultrapassa 5 mil pessoas. Os números demonstram que a saúde mental se tornou uma demanda estrutural no sistema público.
Parcerias para ampliar o acesso
Diante desse cenário, o município tem buscado alternativas. Em entrevista à Rádio Caxias, a diretora do Instituto Amor em Cuidar, Andressa Trindade, explicou que a parceria com a prefeitura possibilita a oferta de 60 consultas mensais gratuitas nas áreas de psiquiatria e psicoterapia.
Ela destaca que o objetivo é contribuir para a redução das filas e oferecer atendimento humanizado à população que não consegue acessar o serviço de forma imediata.
Já a Secretaria da Saúde ressalta que a iniciativa também representa uma estratégia para qualificar o atendimento e otimizar recursos públicos, ampliando a rede de cuidado em saúde mental.
Infância e adolescência em foco
Outra reportagem da Rádio Caxias evidencia a abertura de uma clínica terapêutica voltada a crianças e adolescentes com transtornos mentais. Profissionais envolvidos no projeto reforçam que o atendimento precoce é fundamental para evitar o agravamento dos quadros e promover desenvolvimento saudável.
A iniciativa amplia o olhar sobre a saúde mental, reconhecendo que os transtornos podem surgir ainda na infância e exigem abordagens específicas.
Prevenção e um desafio de informação
Durante a cobertura do Setembro Amarelo, o psiquiatra Dr. Marcelo Grings também alertou para um entrave importante: a dificuldade de organizar dados sobre suicídio de forma territorializada em Caxias do Sul.
Segundo ele, os casos não apresentam uma distribuição geográfica clara, o que dificulta a criação de estratégias específicas de prevenção em determinadas regiões da cidade. Isso evidencia a complexidade do fenômeno e a necessidade de políticas públicas mais integradas.
Reorganização da rede de atendimento
Outro ponto abordado nas reportagens da Rádio Caxias é a reestruturação da rede pública. A decisão de encerrar o pagamento de leitos em instituições como a Clínica Paulo Guedes foi apresentada pela administração municipal como uma medida de reorganização e economia de recursos — estimada em cerca de R$ 1,5 milhão.
A proposta, conforme informado pela prefeitura, é redirecionar investimentos para fortalecer outros serviços da rede de atenção psicossocial, priorizando um modelo mais comunitário e contínuo de cuidado.
Desmistificar para avançar
As diferentes vozes ouvidas nas reportagens da Rádio Caxias convergem para um ponto em comum: a necessidade de desmistificar a saúde mental.
Seja na fala de especialistas como o Dr. Marcelo Grings, na atuação de instituições como o Instituto Amor em Cuidar ou nas estratégias do poder público, fica evidente que o caminho passa pela informação, pelo acesso e pelo acolhimento.
Mais do que tratar doenças, a psiquiatria — e toda a rede de saúde mental — busca garantir qualidade de vida. E isso começa, прежде de tudo, por romper o silêncio e o preconceito que ainda cercam o tema.
