A adoção no Brasil ainda enfrenta entraves burocráticos, estigmas e desigualdades raciais, mas também é palco de histórias de amor, coragem e transformação. Em Caxias do Sul e na Serra Gaúcha, famílias, instituições e produções culturais vêm ampliando o debate e reforçando que adotar é, antes de tudo, um ato de pertencimento.
O tema ganhou destaque na literatura com o lançamento do livro “Histórias sobre Adoção”, organizado pelo Instituto Filhos. A obra reúne 25 contos de cinco autores e foi lançada no mês de novembro de 2025, no Centro de Cultura Ordovás, com distribuição gratuita de exemplares.
Idealizado pelo jornalista Cláudio Troian, o projeto foi concluído sob coordenação de José Otávio Carlomagno, presidente do Instituto Filhos, que também compartilha sua própria experiência como pai de seis filhos adotivos. Em entrevista para a Rádio Caxias ele disse que:
“A adoção transforma tanto quem é acolhido quanto quem acolhe. Não é caridade, é amor e compromisso”.
O livro, produzido com recursos da Lei de Incentivo à Cultura (LIC), traz textos de Ana Cardoso, Alessandra Reck, Dinarte de Borba e Albuquerque, Pablo Morena e Adriana Antunes, com ilustrações de Hernani Carraro.
Por outro lado, a historiadora Maria Helena Mion Barbiero trouxe uma perspectiva histórica importante sobre a adoção. Segundo ela, a prática de adoção remonta à Antiguidade e está profundamente ligada à necessidade de perpetuar a memória dos ancestrais e manter o culto aos deuses. “Já no Código de Amurabi, da civilização mesopotâmica, há registros sobre a adoção como um meio de garantir a continuidade da família e a religiosidade”, explicou a historiadora. Esse aspecto de continuidade familiar era central nas civilizações antigas, e a adoção desempenhava um papel crucial na manutenção desses valores.
Cinema local dá rosto à emoção da adoção
O tema também chega às telas com o filme “Por Todos Nós”, uma produção caxiense escrita e protagonizada por Suzy Menegatti. A obra conta a história real de uma família que, após anos de tentativas frustradas de engravidar, realiza o sonho da maternidade por meio da adoção.
Suzy defende a importância de retratar a realidade regional e valorizar histórias que nascem da comunidade. De acordo com ela, a intenção é “dar voz à dor silenciosa e desmistificar preconceitos sobre a adoção”.
A produção será exibida em abril de 2026 e busca despertar empatia e reflexão sobre as complexidades emocionais e sociais da adoção.
Entre o desejo e a realidade: o abismo dos números
O tema ganha relevância se observamos os números referentes a adoção no Brasil. De acordo com o Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), há mais de 46 mil pretendentes em todo o país e cerca de 3,8 mil crianças e adolescentes à espera de um lar. E por incrível que pareça, em pleno século XXI, o problema ainda está no perfil: 94% dos candidatos querem crianças com menos de oito anos, enquanto a maioria dos acolhidos é composta por adolescentes, pretos e pardos.
O senador Fabiano Contarato, relator da Semana Nacional da Adoção e pai de dois filhos adotivos negros, alerta para o desequilíbrio. De acordo com ele, “os abrigos estão cheios de meninos e meninas que não atendem às preferências dos adotantes. Aos 18 anos, muitos saem de lá sem moradia e sem perspectiva de futuro.” (@FabianoContaratoSenador)
Segundo o SNA, 69,6% das crianças disponíveis para adoção são negras ou pardas, o que reforça o impacto do racismo estrutural também nesse campo. A professora da UCS, Aline Passuelo de Oliveira, explica que a adoção ainda é atravessada por estereótipos de gênero e raça.
Ressaltanbdo que ainda “vivemos em uma sociedade que idealiza a maternidade biológica e invisibiliza a adoção de crianças negras, mais velhas ou com deficiência”.
Adoção e identidade: vivências que inspiram
A jornalista e escritora Lisandra Melo Barbiero transformou sua própria história em livro. Parda, adotada por uma família branca e de classe média, ela revela como o preconceito marcou sua infância. Ela conta que descobriu cedo “que o amor pode ser maior que o preconceito, mas também que as feridas do racismo e da diferença permanecem”.
Já o casal André Luís Engelke e Vivian Charara viveu o outro lado do processo: a longa espera. Eles aguardaram por três longos anos até finalmente adotarem Nathiely, então com um ano e dois meses. Conforme André, “a espera foi difícil, mas cada etapa nos ensinou sobre paciência e amor. A adoção nos escolheu tanto quanto escolhemos adotar”.
Casos como esses mostram que, mesmo diante da burocracia e dos preconceitos, a adoção é capaz de reconfigurar lares e reescrever histórias e nisso a gente tem muito para celebrar.
Acolhimento familiar: um passo antes da adoção
Enquanto isso, programas de acolhimento familiar vêm tentando suprir a falta de lares temporários para crianças afastadas judicialmente de suas famílias. Contudo, o projeto, coordenado pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) e executado em Caxias do Sul pela Fundação de Assistência Social (FAS), ainda tem baixa adesão: apenas três famílias participam, frente à cerca de 220 crianças institucionalizadas no município.
A promotora Cristiane Corrales explicou em entrevista para a Rádio Caxias que o acolhimento é temporário, mas fundamental. De acordo com ela, “o objetivo é garantir um ambiente seguro enquanto se busca a reintegração familiar ou a adoção definitiva.”
Segundo Morgana Rech, coordenadora do programa “Famílias Acolhedoras”, o acolhimento também é uma forma de cidadania ativa. E reforça, que “não se trata de um caminho para a adoção, mas de um gesto de solidariedade que garante à criança o direito de crescer em um ambiente afetivo e digno.” Interessados podem se cadastrar pelo Instagram @familiaacolhedora.caxiasdosul ou pelo WhatsApp (54) 98425-0425.
Reflexão e compromisso
Em 25 de maio é celebrado o Dia Nacional da Adoção e a Semana Nacional da Adoção, instituída em 2022, e que reforçam a importância de políticas públicas e da conscientização social. Mais do que um processo legal, a adoção é um exercício de empatia e reconhecimento, mas que precisa estar em pauta todo o ano, como resume o presidente do Instituto Filhos, José Otávio Carlomagno. Afinal, “adotar é dar sentido à palavra família — não pela biologia, mas pelo afeto que escolhe permanecer.”
