Na série Adolescência, da Netflix, o adolescente Jamie Miller, de 13 anos, chega ao extremo da violência dentro da escola. Isolado, desconectado da família e consumido por fóruns digitais que estimulam o ódio, ele se torna o símbolo de uma geração em crise — uma juventude marcada por solidão, radicalização e ausência de escuta.
Meses após o lançamento da produção, a ficção parece encontrar eco na realidade. Em 1º de abril de 2025, em Caxias do Sul, três adolescentes — dois meninos e uma menina — atacaram com facas uma professora de inglês dentro da Escola Municipal João de Zorzi. O crime, planejado e executado em grupo, deixou a comunidade escolar em choque e trouxe à tona um debate urgente: o que está por trás do aumento da violência entre jovens?
“A violência é construída no silêncio”
A psicóloga Juliana Piazza, em entrevista à Rádio Caxias, afirma que o episódio de Caxias ilustra “a somatória de fatores emocionais, familiares e sociais que têm sido negligenciados”.
Conforme a psicóloga, “a Geração Z apresenta dificuldades em lidar com frustrações. Quando não há diálogo ou apoio emocional, os adolescentes buscam respostas em lugares perigosos, especialmente no ambiente digital. A violência não surge do nada — ela é construída no silêncio, em vínculos rompidos e na falta de escuta.”
A profissional destaca que a banalização da agressividade nas redes sociais e nos conteúdos audiovisuais contribui para esse cenário. Assim como na série Adolescência, o caso real envolveu a criação de um grupo virtual, chamado “Matadores”, usado para planejar o ataque. Mensagens trocadas pelos jovens indicavam premeditação e incentivo mútuo à violência.
Escola em colapso
Após o crime, a secretária municipal da Educação, Marta Fattori, afirmou que a pasta reforçou o atendimento psicológico a professores e estudantes e prometeu intensificar as medidas de segurança.
“As rondas da Guarda Municipal já eram feitas, mas estamos revendo protocolos e ampliando o acompanhamento socioemocional”, disse à Rádio Caxias.
Para o presidente da Comissão de Educação da Câmara de Vereadores, Edson da Rosa (Republicanos), o episódio representa “uma grave violação dos limites dentro da sala de aula” — sinal de que a autoridade escolar vem sendo corroída.
Na ficção, o mesmo colapso é retratado: professores fragilizados, diretores impotentes e uma instituição escolar que já não consegue conter os impulsos de uma juventude em conflito. O paralelo entre o roteiro e a realidade é inevitável.
A professora e a busca por justiça
A professora ferida sobreviveu, mas as marcas físicas e emocionais permanecem. Em entrevista à Rádio Caxias, ela afirmou sentir-se “aliviada, mas não satisfeita” após o julgamento dos agressores, condenados a três anos de internação por tentativa de homicídio, associação criminosa e incitação à prática criminosa. Em entrevista à
Rádio Caxias, o advogado da professora, Reginaldo Leonel Ferreira, elogiou a condução técnica e equilibrada do processo pelo Juizado da Infância e Juventude, Ministério Público e pelas defesas.
A docente também ingressou com ação judicial contra a prefeitura e o diretor da escola, alegando negligência na segurança e falta de amparo institucional.
“Eu amava dar aula, mas naquele dia perdi a sensação de segurança. Nenhum professor deveria temer seus alunos”, declarou.
Violência que ultrapassa o portão da escola
Embora o ataque tenha ocorrido em um ambiente educacional, o caso expõe dimensões mais amplas da violência de gênero e da desvalorização do trabalho docente. A a promotora de Justiça Ivana Battaglin, coordenadora do Centro de Apoio Operacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher, já havia alertado em outra entrevista à Rádio Caxias: “Se nada mudar, levaremos 150 anos para vencer a violência contra a mulher.”
A também coordenadora do Centro de Apoio Operacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher, Ivana Battaglin, ainda reforça que a violência institucionalizada contra mulheres — inclusive em espaços de poder e conhecimento, como a escola — tem raízes profundas.
Ela afirmou que “a violência política e simbólica contra mulheres ainda é naturalizada. Precisamos desconstruir mitos e enfrentar as estruturas que sustentam essa desigualdade”. Para ela, a agressão à professora não pode ser lida apenas como ato de indisciplina escolar, mas como um sintoma de uma sociedade que ainda tolera práticas de desrespeito, silenciamento e dominação.
“O problema é coletivo, e a solução também”
O caso de Caxias do Sul levou o Comitê RS da Campanha Nacional pelo Direito à Educação a emitir nota pública cobrando ações estruturais.
“O ataque brutal não é um fato isolado, mas o retrato de uma crise que atravessa nossas escolas e nossa sociedade”, dizia o documento.
O texto pedia políticas contínuas de prevenção, formação de professores em mediação de conflitos e fortalecimento da rede intersetorial de proteção a crianças e adolescentes.
Para a psicóloga Juliana Piazza, as soluções precisam ser múltiplas, reforçando que “não existe uma causa única. Precisamos olhar para a saúde mental, o ambiente familiar, o uso das redes, a cultura de gênero e o papel da escola. A resposta tem que ser coletiva.”
Entre a ficção e a realidade: um espelho do nosso tempo
A série Adolescência e o ataque em Caxias do Sul refletem um mesmo diagnóstico: a violência não nasce na escola, mas encontra nela um palco de visibilidade. A falta de escuta, o isolamento, a cultura do ódio e o despreparo das instituições formam o pano de fundo para uma tragédia anunciada.
Na ficção, Jamie Miller é um adolescente abandonado pelos adultos que deveriam protegê-lo. Na vida real, os agressores de Caxias do Sul também surgem de um contexto de vínculos fragilizados e ausência de pertencimento.
Ambos os enredos — o da tela e o das manchetes — expõem a urgência de transformar o ambiente escolar em espaço de diálogo, empatia e proteção.
Como afirma Ivana Battaglin:
“A violência não se combate apenas com punição. Combate-se com educação, com política pública e com o reconhecimento do outro como sujeito de direitos.”
E talvez essa seja a principal lição que a ficção tenta nos dar — antes que o silêncio volte a falar mais alto que a palavra.
