Morar perto do mar deixou de ser apenas um momento de férias para se tornar um projeto de vida para milhares de brasileiros. Nos últimos anos, cidades litorâneas passaram a registrar crescimento populacional significativo, impulsionado principalmente pela busca por qualidade de vida, maior contato com a natureza e novas formas de trabalho. Esse movimento tem mudado a dinâmica de muitas regiões costeiras do Brasil.
Dados do Censo 2022 mostram que mais da metade da população brasileira vive próxima ao litoral. Ao todo, cerca de 111,2 milhões de pessoas moram a até 150 quilômetros da costa, o que representa 54,8% da população do país. Esse número cresceu em relação a 2010, quando pouco mais de 106 milhões de pessoas viviam nessa faixa territorial.
No Litoral Norte do Rio Grande do Sul, esse movimento também é evidente. A região vive um crescimento populacional acelerado e se tornou uma das áreas que mais recebem novos moradores no estado. Segundo o Censo 2022, os 23 municípios da região somavam aproximadamente 408 mil habitantes. Com novas estimativas do IBGE, esse número continuou aumentando e ultrapassou 435 mil moradores fixos em 2025, representando crescimento de cerca de 3,39% em relação a 2022.
O avanço chama atenção principalmente porque ocorre em um cenário oposto ao de muitas cidades do interior gaúcho, que registram queda populacional. Entre 2010 e 2022, o Litoral Norte teve crescimento de cerca de 25,8%, índice 14 vezes maior que o crescimento médio do Rio Grande do Sul no mesmo período.
Entre os municípios que mais cresceram proporcionalmente estão Imbé, com crescimento de aproximadamente 52%; Capão da Canoa, com aumento de cerca de 51% e Arroio do Sal, com crescimento de aproximadamente 43%. Quando falamos de cidades mais populosas da região são Capão da Canoa, com cerca de 66 mil habitantes, e Tramandaí, com aproximadamente 56 mil moradores.
Especialistas apontam que esse crescimento foi impulsionado por diversos fatores, especialmente nos últimos anos. Entre eles estão a pandemia de Covid-19, o avanço do trabalho remoto e a busca por mais qualidade de vida fora dos grandes centros urbanos.
Durante o período de isolamento, muitas pessoas passaram a repensar o estilo de vida e optaram por morar em locais mais tranquilos, próximos à natureza. Nesse cenário, casas que antes eram usadas apenas durante o verão passaram a ser ocupadas ao longo de todo o ano.
Como é o caso do casal aposentando Luiz Antônio Simões, 85 anos e Neuza Gusmão Simões, 77 anos. Eles se mudaram para Imbé, no início da pandemia. E não quiseram mais voltar para Porto Alegre.

Mais recentemente, as enchentes históricas que atingiram o Rio Grande do Sul em maio de 2024 também contribuíram para deslocamentos internos no estado. Parte da população afetada buscou cidades do litoral consideradas mais seguras em relação a cheias.
O Jonatan Marinho Daniel, 27 anos, barbeiro foi um deles. Com a casa totalmente atingida pelas chuvas em Canoas, decidiu recomeçar a vida em Tramandaí. Foi no Litoral inclusive que virou empreendedor.

Mas há os que chegaram no Litoral Norte bem antes da pandemia e da enchente. O motivo: busca por qualidade de vida. Muitas pessoas deixam cidades grandes, marcadas por trânsito intenso, violência e rotina acelerada, em busca de ambientes mais tranquilos.
A família Borelli é a prova disso. Moradores de Garibaldi, na Serra Gaúcha, Gilberto, Adriana e os filhos deixaram a cidade de origem há mais de 20 anos para viver na praia. Proprietários de uma marca de móveis a família uniu bem-estar e negócios.

Cidades litorâneas oferecem uma combinação que atrai cada vez mais moradores: paisagens naturais, ritmo de vida mais calmo e maior proximidade com atividades ao ar livre. Caminhadas na beira da praia, prática de esportes e contato constante com o mar são fatores que influenciam diretamente na sensação de bem-estar. Seu Luiz diz que morar na praia ficou mais fácil de manter a forma.

Estudos indicam que viver perto do oceano pode trazer benefícios físicos e mentais. Pesquisas apontam que moradores de regiões litorâneas apresentam menores níveis de estresse e maior estímulo à prática de atividades físicas, o que contribui para uma vida mais saudável. Há também estudos que sugerem que pessoas que vivem próximas ao litoral podem apresentar maior expectativa de vida.

Esse movimento também impacta diretamente o mercado imobiliário. Em várias regiões do litoral brasileiro, a procura por imóveis cresceu significativamente, provocando valorização das propriedades e expansão de novos empreendimentos.
O corretor de imóveis, Adriano Cunha, ressalta que só em 2025 mais de R$ 7 bilhões foram vendidos em imóveis, o que comprova a movimentação cada vez mais acelerada. Cunha enfatiza que esta expansão está apenas começando. Um exemplo, 200 mil habitantes deixaram de morar em Porto Alegre se dividindo entre a Serra e o Litoral Norte.

Outro motivo frequentemente citado por quem decide mudar para o litoral é a sensação de segurança e tranquilidade. Muitas cidades costeiras, especialmente as de médio e pequeno porte, apresentam índices de violência menores que grandes capitais e um ritmo urbano menos intenso.
Com essa transformação, o litoral brasileiro deixa de ser apenas um destino turístico e passa a se consolidar como espaço permanente de moradia. Novos moradores trazem demandas por infraestrutura, educação, saúde e oportunidades de trabalho, impulsionando o desenvolvimento das cidades.
Ao mesmo tempo, especialistas alertam que esse crescimento precisa ser acompanhado de planejamento urbano e preservação ambiental, para garantir que a expansão populacional não comprometa os recursos naturais que tornam essas regiões tão atrativas.
Para muitas pessoas, morar perto do mar representa a realização de um sonho antigo. A possibilidade de acordar com o som das ondas, caminhar pela areia no fim do dia, sentir o cheiro do protetor solar e viver em um ambiente mais próximo da natureza continua sendo um forte elemento de atração.

Assim, enquanto grandes cidades enfrentam desafios como trânsito, poluição e rotina acelerada, o litoral segue conquistando novos moradores, pois para quem escolheu esse caminho, viver na praia não é apenas um lugar no mapa é um estilo de vida.
