Quando o tratamento contra o câncer provoca mudanças no corpo, o apoio e o acolhimento se tornam ainda mais essenciais. Entre essas transformações, a perda do cabelo é uma etapa comum do processo. Mas, em Caxias do Sul, fios escuros, claros, longos ou em diferentes tonalidades deixam de ser apenas cabelos e passam a ganhar um novo significado na vida de mulheres que enfrentam a batalha contra o câncer na jornada pela cura. Um processo de recuperação que se materializa no Banco de Perucas do Hospital Geral, onde afeto e cuidado se traduzem em gestos concretos.
Na entrada da Unidade de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacon), enquanto pessoas aguardam atendimento com os mais variados diagnósticos ou em busca dele, um corredor lateral leva à sala de recuperação da autoestima. Lá não existe a aplicação de medicamentos, mas sim um espaço que reúne fios naturais, almofadas do coração, broches, lenços e, acima de tudo, acolhimento.
O projeto, que completa 13 anos em 2026, nasceu do olhar humano e da sensibilidade da médica oncologista Janaina Brollo, especialista em câncer de mama. Em 2013, após a especialização no Instituto Europeu de Oncologia, em Milão, onde permaneceu por dois anos e teve contato com diferentes projetos sociais, Janaína percebeu, ao retornar ao Brasil, o alto custo de u peruca natural ao conhecer a história de uma jovem paciente. Ela conta que, ao lado do esposo, também médico do Hospital Geral, e de muitas mãos que abraçaram a causa, o projeto se consolidou, oferecendo muito mais do que o simples acesso a perucas: um acolhimento completo a mais de mil mulheres atendidas diretamente ao longo desses anos.

A médica destaca que, ao longo dos anos, o Banco de Perucas cresceu com o apoio da comunidade e se consolidou como referência no acolhimento a mulheres em tratamento contra o câncer. Hoje, o projeto vai além da doação de perucas e reúne diferentes ações voltadas à autoestima e à qualidade de vida das pacientes.
Muito além do cuidado estético e do acolhimento emocional, estudos comprovam o quanto essas ações contribuem diretamente para a saúde das pacientes. Conforme Janaina, do ponto de vista clínico, o suporte psicológico, familiar e social pode influenciar na qualidade de vida e até na resposta ao tratamento.
Entre as muitas mãos citadas por Janaina na construção e na manutenção diária do espaço, a coordenadora do Banco de Perucas, Clementina Giacomelli, é uma das cerca de 70 mulheres que sustentam o projeto com dedicação e afeto, por meio do Instituto Amigas de Peito e Alma da Serra Gaúcha. Diagnosticada com câncer de mama em 2010, ela vivenciou de perto todas as etapas do tratamento, incluindo a perda de cabelo. Uma experiência que despertou o desejo de ajudar outras mulheres e reforçou o compromisso com a conscientização e o acolhimento. Para ela, ter vivido o câncer de mama torna o trabalho feito por ex-pacientes um diferencial importante na compreensão e no apoio emocional necessários.

A coordenadora explica o funcionamento do Banco, desde a chegada dos cabelos por meio de doações, vindas de todo o país, até o empréstimo das perucas às pacientes e o cuidado com os fios. O cabelo doado passa pela cabeleireira do Banco, que trabalha minuciosamente na separação por cor e tamanho para, a partir disso, iniciar a confecção das perucas naturais. O empréstimo ocorre por seis meses, podendo ter o prazo ampliado conforme a necessidade do tratamento.
A relação entre autoestima e enfrentamento do câncer de mama também é um ponto destacado por quem acompanha de perto o tratamento das pacientes. Conforme Clementina, a perda do cabelo costuma ter impacto emocional significativo e pode influenciar diretamente na forma como cada mulher vivencia esse processo, muitas vezes representando o momento de assumir publicamente a doença.
Para além do cuidado com a autoestima, o Banco de Perucas oferece muito mais do que o suporte relacionado aos cabelos, por meio de perucas, lenços e acessórios. O trabalho também envolve o cuidado integral das pacientes, com acesso a procedimentos e recursos que, muitas vezes, não são ofertados nem mesmo por planos de saúde. Clementina destaca que o Banco é o projeto mais conhecido, mas a iniciativa também viabiliza tecnologias importantes para o tratamento, incluindo a oferta de clipes mamários, que não estão disponíveis pelo Sistema Único de Saúde (SUS) nem costumam ser cobertos por planos de saúde, além de exames e até próteses mamárias.

Diante de tanta acolhida expressa no cuidado completo às mulheres em tratamento, a médica Janaina relembra que, apesar da alta incidência do câncer, as taxas de cura têm aumentado. Segundo ela, é essencial a aproximação com equipes preparadas para oferecer acolhimento físico, emocional e até espiritual. Já para quem não enfrenta a doença, permanece fundamental a prevenção por meio dos cuidados com a saúde.
Clementina também ressalta a importância da busca por informação e lembra que o Banco está preparado para atender mulheres dos 49 municípios da região, com uma equipe pronta para acolher, apoiar, compreender e auxiliar.
Diante de histórias marcadas pela superação, pelo acolhimento e pela solidariedade, o Banco de Perucas mostra que o tratamento contra o câncer vai muito além da medicina. Ele passa pelo cuidado emocional, pela informação, pela rede de apoio e pela certeza de que nenhuma mulher precisa enfrentar essa jornada sozinha. Em cada doação, em cada peruca confeccionada, em cada gesto de escuta e atenção, existe uma corrente silenciosa de afeto que fortalece quem está no caminho da cura. E a comunidade caxiense pode apoiar a causa em mais um ano, no dia 3 de outubro, na segunda edição da Corrida Pela Cura.
Assim, seja em um abraço, em um sorriso, em uma palavra de incentivo ou até em um simples corte de cabelo capaz de transformar a vida de outra mulher, gestos de empatia seguem fazendo a diferença. Que iniciativas como essa continuem inspirando a comunidade, reforçando a importância da prevenção, do cuidado coletivo e da solidariedade. Porque o caminho pela cura, quando compartilhado, se torna mais leve e deve ser sempre trilhado com amor, dignidade e cuidado.

