Condição é uma das principais causas de artrose precoce e afeta sobretudo adultos jovens e praticantes de atividades físicas
A dor no quadril costuma ser associada ao envelhecimento. Um incômodo na virilha, uma fisgada ao sair do carro ou a dificuldade para calçar meias são sinais que muita gente passa a tratar como parte da rotina, adiando a busca por avaliação.
Só que, em uma parte dos adultos jovens, esses sintomas podem indicar um problema estrutural da articulação chamado impacto femoroacetabular, ou IFA.
Trata-se de um contato anormal entre o fêmur e o acetábulo, geralmente causado por alterações na forma dos ossos, que faz com que a articulação sofra atrito antes do esperado em movimentos simples do dia a dia.
Esse choque repetido pode comprimir estruturas importantes, como o lábio acetabular e a cartilagem, favorecendo um desgaste progressivo. Estudos já mostram que sinais compatíveis com o IFA aparecem com frequência considerável, inclusive em pessoas sem sintomas.
Quando há dor e limitação, o alerta ganha ainda mais peso, porque hoje o quadro é reconhecido como uma das principais causas de artrose precoce do quadril em adultos jovens.
O problema começa silencioso
A Serra Gaúcha tem tradição no esporte amador. Corrida de rua, ciclismo, futebol de fim de semana e treinos em academia fazem parte da rotina de milhares de moradores de Caxias do Sul e região.
Esse perfil ativo, positivo para a saúde cardiovascular, também expõe o quadril a cargas repetitivas que podem acelerar o aparecimento de sintomas em quem já carrega uma alteração anatômica sem saber.
O tipo mais comum de IFA é o misto, presente em mais de 80% dos casos diagnosticados. Nele, coexistem a deformidade do fêmur (chamada Cam, mais frequente em homens) e a da borda acetabular (chamada Pincer, mais frequente em mulheres). Em muitos pacientes, o formato alterado do quadril vem da adolescência, período em que o osso ainda está em formação.
Atividades com grande amplitude de movimento praticadas nessa fase, como artes marciais, dança e futebol, podem contribuir para o desenvolvimento da saliência óssea que caracteriza o impacto tipo Cam.
A questão é que os primeiros anos costumam ser silenciosos. A dor aparece aos poucos, geralmente na virilha, e piora ao sentar por tempo prolongado, ao cruzar as pernas ou ao praticar exercícios com flexão profunda do quadril.
Estalos e sensação de travamento também são relatados. Em consultórios de ortopedia, não é raro que o paciente já tenha passado por diagnósticos anteriores de tendinite, bursite, pubalgia ou problema lombar antes de chegar ao diagnóstico correto.
Quando buscar avaliação especializada
A demora no diagnóstico tem consequências diretas. A cartilagem do quadril não se regenera. Uma vez iniciado o desgaste provocado pelo impacto repetido, a progressão tende a ser contínua.
Artigos publicados na plataforma SciELO apontam que o IFA é fator etiológico em parcela expressiva dos casos de osteoartrose do quadril antes dos 50 anos, condição que compromete a mobilidade e pode levar à necessidade de prótese articular.
Quem sente dor persistente na virilha, limitação para girar o quadril ou incômodo ao retomar atividades físicas deve procurar um médico do quadril com experiência em diagnóstico por imagem e avaliação funcional.
A investigação envolve exame clínico, radiografias em incidências específicas e, na maioria dos casos, ressonância magnética para avaliar o estado do lábio acetabular e da cartilagem.
O exame físico já traz pistas importantes. A manobra mais utilizada é a combinação de flexão, adução e rotação interna do quadril, que reproduz a dor quando o impacto está presente.
Porém, conforme descrito no Consenso de Warwick, publicado em 2016, nenhum teste isolado é suficiente para fechar o diagnóstico. A síndrome do impacto femoroacetabular exige a associação de sintomas, sinais clínicos e achados de imagem.
Tratamento conservador e o papel da artroscopia
O tratamento do IFA depende do grau de comprometimento da articulação. Em fases iniciais, quando a dor é leve e não há lesão significativa do lábio ou da cartilagem, o manejo conservador pode ser suficiente.
Esse caminho inclui ajuste de carga nas atividades físicas, fortalecimento muscular dos estabilizadores do quadril (glúteos, rotadores e musculatura do abdômen), controle de peso e, quando necessário, uso de anti-inflamatórios por período curto.
Fisioterapia direcionada ao reequilíbrio muscular e ao ganho de controle motor é parte central do tratamento. O objetivo não é forçar amplitude, porque no quadril com impacto o excesso de alongamento pode agravar a lesão. O foco é melhorar a estabilidade da articulação para que ela suporte a carga diária sem gerar atrito excessivo.
Quando o tratamento conservador falha, ou quando os exames já mostram lesão do lábio acetabular e comprometimento da cartilagem, a cirurgia pode ser indicada.
A técnica mais utilizada é a artroscopia do quadril, procedimento minimamente invasivo que permite ao cirurgião corrigir a deformidade óssea (remoção da saliência no fêmur ou regularização da borda acetabular) e reparar as estruturas lesionadas.
O resultado cirúrgico depende de dois fatores principais: o momento da indicação e a experiência do profissional. Intervenções realizadas antes do aparecimento de artrose significativa apresentam taxas de sucesso mais altas. Quando o desgaste já está avançado, a artroscopia perde eficácia e a prótese passa a ser considerada.
“O impacto femoroacetabular é uma condição tratável, mas o tempo conta. Quanto mais cedo o paciente chega ao diagnóstico, maiores as chances de preservar a articulação sem necessidade de prótese”, afirma Dr. Tiago Bernardes, ortopedista especialista em quadril em Goiânia, membro da SBOT e da SBQ, com formação pela ESCS/DF e residência no Hospital das Clínicas da UFG (CRM-GO 13.658, RQE 8594).
Os sinais que não devem ser ignorados
Para moradores da Serra Gaúcha e de outras regiões com perfil ativo, a atenção aos sinais precoces faz diferença no desfecho do tratamento. Dor na virilha que aparece ao caminhar, ao subir escadas ou após treinos com agachamento merece investigação. Limitação para girar a perna para dentro, sensação de “encurtamento” do movimento e estalos no quadril são outros indicadores.
O IFA não é uma sentença. É uma condição com tratamento definido, que vai desde o ajuste de hábitos até a correção cirúrgica, dependendo do estágio. O ponto crítico é o tempo. O lábio acetabular lesionado não se repara sozinho. A cartilagem desgastada não se reconstrói. E a artrose instalada exige intervenções mais complexas e com recuperação mais longa.
Adultos jovens com dor no quadril não deveriam aceitar o diagnóstico de “nada grave” sem uma avaliação especializada. Em muitos casos, o que parece ser uma dor muscular passageira é, na verdade, o primeiro sinal de uma alteração estrutural que a medicina já sabe identificar e tratar com bons resultados, desde que o momento certo não seja perdido.
Na área do quadril, um dos centros de referência é o COE (Centro de Ortopedia Especializada), que reúne especialistas em diferentes subespecialidades ortopédicas. A orientação de profissionais da área é verificar a formação do médico em cirurgia do quadril, o vínculo com sociedades reconhecidas como a SBOT e a SBQ, e o volume de procedimentos realizados.
