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Dor nas mãos que muita gente ignora pode custar movimentos simples do dia a dia

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  • 23/02/2026

Síndrome do túnel do carpo, tendinites e lesões por esforço repetitivo estão entre as causas mais comuns de incapacidade nos membros superiores, e o atraso no diagnóstico agrava o quadro

Em 2024, o Ministério da Previdência Social registrou mais de 101 mil casos de fraturas na mão e no punho que resultaram em afastamento do trabalho, um aumento de 24,7% em relação ao ano anterior. O número, divulgado pela Sociedade Brasileira de Cirurgia da Mão (SBCM), revela apenas uma parte do problema.

Quando se somam as lesões por esforço repetitivo, as tendinites crônicas e as compressões nervosas, o cenário fica mais grave. Estima-se que 15 milhões de brasileiros convivam com algum grau de LER ou DORT, segundo o Tribunal Regional do Trabalho do Ceará, com base em dados do Ministério da Saúde.

Na Serra Gaúcha, onde o setor metalmecânico emprega milhares de pessoas em linhas de montagem, soldagem e operação de máquinas, o risco é ainda maior.

Estudos publicados na Revista Brasileira de Medicina do Trabalho mostram que mãos e dedos são as partes do corpo mais atingidas em acidentes na indústria metalúrgica, respondendo por até 43% das ocorrências registradas.

Em Caxias do Sul e nos municípios vizinhos, a combinação entre trabalho manual intenso e falta de atenção aos primeiros sinais de dor cria um padrão que os ortopedistas conhecem de perto: o paciente chega ao consultório tarde, quando o problema já comprometeu a função da mão.

Uma dor que parece passageira

O formigamento nos dedos ao acordar. A dificuldade para abrir uma garrafa. A sensação de fraqueza ao segurar uma caneta por mais de alguns minutos.

Para a maioria das pessoas, esses sinais não parecem motivo de consulta médica. São desconfortos que passam com um alongamento ou com uma noite de sono. O problema é que, em muitos casos, não passam.

A síndrome do túnel do carpo é o exemplo mais emblemático. Trata-se da neuropatia compressiva mais comum do corpo humano, conforme artigo publicado na Revista Brasileira de Ortopedia em parceria entre pesquisadores do Hospital Lapeyronie, na França, e da PUC do Rio Grande do Sul.

A prevalência estimada gira em torno de 4 a 5% da população adulta, com pico entre os 40 e 60 anos, e incidência significativamente maior entre mulheres.

Conforme acrescenta Dr. Henrique Bufaiçal, médico ortopedista de mãos com consultório localizado em Goiânia, o nervo mediano, que controla a sensibilidade do polegar, do indicador, do dedo médio e de parte do anelar, sofre compressão ao passar pelo túnel do carpo, uma estrutura estreita no punho.

Os sintomas iniciais, como dormência noturna e formigamento, costumam ser ignorados ou tratados com analgésicos comuns. Quando a dor passa a ocorrer também durante o dia, acompanhada de perda de força na pegada, o quadro já progrediu.

A regra, segundo a literatura médica, é o agravamento dos sintomas. A regressão espontânea é possível, mas exceção.

O peso do trabalho repetitivo

Na Serra Gaúcha, o perfil produtivo da região amplia a exposição ao problema. Caxias do Sul concentra um dos maiores polos metalmecânicos do país, com empresas como Marcopolo, Randon e centenas de fornecedores de menor porte que empregam operadores de máquinas, soldadores e montadores. Bento Gonçalves e Flores da Cunha somam a indústria moveleira.

Carlos Barbosa e Nova Prata contribuem com a agroindústria. Em todos esses setores, o trabalho envolve movimentos repetitivos das mãos, uso de ferramentas vibratórias e posturas mantidas por horas.

O Ministério da Previdência Social informou que, em 2023, a síndrome do túnel do carpo afastou 24.002 trabalhadores no Brasil, número 33% superior ao registrado no ano anterior. A SBCM atribuiu o crescimento à combinação entre aumento da jornada de trabalho digital, expansão de atividades industriais e diagnóstico tardio.

LER e DORT são a segunda maior causa de afastamento do trabalho no país, atrás apenas dos acidentes de trânsito. O INSS concedeu, em 2023, mais de 100 mil auxílios-doença por esse tipo de lesão, com custo superior a R$ 1 bilhão para o sistema previdenciário.

Para quem trabalha oito horas por dia operando uma prensa, montando peças em linha ou digitando relatórios, a dor nas mãos não é frescura. É sintoma.

Quando o diagnóstico demora, o tratamento complica

A artrose nas mãos, por exemplo, atinge cerca de 20% dos adultos brasileiros, conforme dados da Sociedade Brasileira de Reumatologia. Nas articulações dos dedos, ela provoca rigidez matinal, inchaço e perda progressiva de mobilidade.

Diagnosticada cedo, pode ser controlada com fisioterapia, ajustes ergonômicos e medicação. Diagnosticada tarde, quando já há deformidade articular, as opções se reduzem. O mesmo acontece com o dedo em gatilho, condição em que os tendões flexores ficam presos ao entrar nos dedos, causando travamento e dor.

E com a tenossinovite de De Quervain, inflamação que atinge os tendões do polegar e gera dor intensa no punho, mais frequente em mulheres após os 40 anos e em profissionais que realizam movimentos de pinça de forma repetida. Em todos esses casos, o intervalo entre o primeiro sintoma e a consulta com um especialista costuma ser medido em meses ou anos.

Um levantamento da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) indicou que a artrose tem atingido pessoas mais jovens, entre 30 e 50 anos, geralmente associada a sobrecarga de exercícios ou atividades laborais. O alerta dos especialistas é direto: dor é sintoma, e sintoma exige investigação.

A importância da avaliação com um especialista em mãos

Nem todo ortopedista trata mãos. A cirurgia da mão é uma subespecialidade que exige formação complementar à residência em ortopedia, com treinamento voltado à anatomia complexa dos dedos, do punho e dos tendões que controlam a precisão dos movimentos.

A diferença entre um diagnóstico genérico e um diagnóstico feito por um ortopedista cirurgião de mão pode definir se o paciente será tratado com uma imobilização simples ou encaminhado para uma cirurgia que já poderia ter sido evitada.

A eletroneuromiografia, exame que mede a velocidade de condução do nervo mediano, é considerada o padrão de referência para confirmar a síndrome do túnel do carpo. Testes clínicos como o de Phalen e o sinal de Tinel ajudam no consultório, mas é o exame complementar que define a gravidade e orienta o tratamento.

Quando os sintomas são leves, o uso de órteses noturnas e anti-inflamatórios pode ser suficiente. Quando há atrofia muscular ou perda de sensibilidade persistente, a cirurgia de liberação do túnel do carpo costuma ser indicada, com técnicas abertas ou endoscópicas, dependendo do caso. O ponto é que essa decisão precisa ser tomada por quem conhece a anatomia da mão em detalhe.

O que a Serra Gaúcha pode fazer diferente

A tradição industrial da região é motivo de orgulho. Caxias do Sul exporta ônibus e implementos rodoviários para dezenas de países. Bento Gonçalves abastece o mercado nacional de móveis. A agroindústria da Serra movimenta bilhões por ano. Mas essa mesma tradição impõe uma carga física sobre as mãos dos trabalhadores que não pode ser ignorada.

Programas de ergonomia e ginástica laboral ajudam, mas não substituem a avaliação clínica quando os sintomas aparecem. A orientação da SBCM é clara: ao primeiro sinal de dormência, formigamento ou dor persistente nas mãos, o trabalhador deve procurar um médico especialista em mãos para avaliação. Quanto mais cedo o diagnóstico, menor o risco de complicações que levam ao afastamento do trabalho ou à incapacidade permanente.

A legislação trabalhista obriga as empresas a fornecer equipamentos de proteção individual e a realizar análise ergonômica dos postos de trabalho. A NR-17 estabelece parâmetros para atividades que exigem movimentos repetitivos, incluindo pausas obrigatórias e limites de carga. Na prática, o cumprimento dessas normas varia. E quando falha a prevenção, resta o tratamento.

Sinais que não devem ser ignorados

Conforme ressaltam os membros da equipe do COE, centro de ortopedia especializada com unidade em Goiânia, alguns sintomas específicos merecem atenção imediata: dormência que acorda o trabalhador durante a noite, dificuldade para abotoar roupas, perda de força ao segurar objetos, dor que irradia do punho para o braço, inchaço sem causa aparente nos dedos e travamento de qualquer dedo ao flexionar.

Nenhum desses sinais é normal. Todos indicam que alguma estrutura da mão, seja nervo, tendão ou articulação, está sob estresse. Em uma região onde as mãos são, literalmente, a ferramenta de trabalho de milhares de famílias, tratar a dor como algo passageiro é um risco que pode custar a capacidade de realizar os movimentos mais básicos do cotidiano.

Dados do Ministério da Previdência Social mostram que, em 2023, foram concedidos 27.477 benefícios acidentários envolvendo fraturas, amputações e lesões por esmagamento da mão e do punho, crescimento de 8,4% sobre 2022.

O número não inclui as doenças crônicas como a síndrome do túnel do carpo e as tendinites de origem ocupacional, que seguem outra classificação previdenciária.

A conta final é simples: tratar cedo custa menos, dói menos e preserva a função. Ignorar a dor não faz o problema desaparecer. Faz ele crescer.

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