A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, durante uma operação conduzida pelos Estados Unidos, reacendeu sentimentos de esperança entre parte da comunidade venezuelana que vive no Brasil. Em meio a anos de crise econômica, escassez e instabilidade política, o episódio é visto por muitos como a possibilidade de um novo começo, ainda que cercado de incertezas sobre o futuro do país.
Em Caxias do Sul, o impacto da notícia ganhou um tom pessoal a partir do relato emocionado de uma imigrante venezuelana que vive há oito anos no Brasil. Para preservar sua identidade, ela será identificada como Mercedez. Aos 37 anos, ela afirma que deixou a Venezuela por necessidade extrema, diante da falta de alimentos, medicamentos, combustível e da impossibilidade de manter uma vida minimamente estável.
Segundo Mercedez, o marido foi o primeiro a migrar, chegando ao Brasil sem recursos financeiros, dormindo em parques e enfrentando fome e dificuldades com o idioma. Anos depois, a família conseguiu se reunir e hoje vive em Caxias do Sul, onde ambos possuem emprego formal. Ainda assim, ela ressalta que a saída do país foi forçada. “A gente trabalhava o mês inteiro e o dinheiro não dava para comprar comida”, relembra.
Ao comentar a captura de Maduro, Mercedez afirma que o sentimento entre os venezuelanos é ambíguo. “Existe um alívio, porque ele representa anos de sofrimento, mas também existe medo pelo que pode acontecer com quem ficou lá”, disse. Para ela, o governo de Maduro foi marcado por repressão política, falta de liberdade e deterioração das condições de vida da população.
Outra venezuelana, Valentina Emiliani, de 27 anos, em licença-maternidade e mãe de duas crianças, e que vive há cinco anos no município, acredita que a captura de Maduro simboliza o fim de um ciclo marcado por sofrimento prolongado.
“Eu falo em nome de muitos venezuelanos. A gente aguardava isso há muitos anos. Foram 27 anos nas mãos de uma ditadura, com muita injustiça, pessoas morrendo de fome, sem luz, sem água, sem coisas básicas para viver”, disse Valentina. Ela ressalta que, embora o modo como a ação aconteceu seja discutível, não havia mais alternativas pacíficas: “Quanto tempo mais a gente ia aguardar para que as coisas melhorassem pacificamente? Saímos para protestar em 2014, 2017, 2019, e não deu em nada. Agora, a captura de Maduro já é felicidade para nós como povo venezuelano”.
A realidade enfrentada por venezuelanos que deixam o país é acompanhada diariamente pelo Centro de Atendimento ao Migrante (CAM). Conforme o professor, Adriano Pistorello, que também é coordenador da entidade, a migração venezuelana está diretamente ligada às violações internas que se intensificaram ao longo dos últimos anos. “As pessoas fogem porque não conseguem mais sobreviver no país. Há relatos constantes de falta de alimentos, medicamentos, energia elétrica, água e de salários que não cobrem o básico”, explicou.
Segundo Pistorello, essas condições empurram famílias inteiras para fora da Venezuela, muitas vezes sem planejamento ou recursos. Em Caxias do Sul, os venezuelanos representam a maioria dos atendimentos realizados pelo CAM, evidenciando a dimensão da crise que atinge o país. “São pessoas que tinham profissão, formação e uma vida estruturada, mas que perderam completamente essa possibilidade”, afirmou.
Para muitos venezuelanos no exterior, a captura de Maduro simboliza um possível ponto de virada. “É estranho ver gente de fora falando em soberania, quando nós não tínhamos nem gás para cozinhar, nem gasolina para trabalhar, nem comida”, relatou Mercedez. Para ela, apesar das incertezas, o momento traz um sentimento de esperança. “É como se fosse um sopro, uma chance de que algo realmente mude”, concluiu.
