Condição afeta até 28 milhões de brasileiros e é a oitava maior causa de afastamento do trabalho, mas muitos pacientes adiam a cirurgia até o quadro se tornar emergência
O trabalhador sente um incômodo na virilha faz meses. Aparece uma saliência discreta, que some quando ele deita e volta quando levanta. A dor piora no fim de um dia de carga pesada, melhora no repouso. Ele convive com isso, decide que não é urgente, adia a consulta.
Até que num dia comum o intestino fica preso na abertura muscular, a dor se torna aguda e insuportável. O que seria uma cirurgia eletiva, com alta em 24 horas, se transforma numa operação de emergência.
Esse percurso é mais comum do que parece. Em 2024, o SUS realizou quase 350 mil cirurgias de hérnia da parede abdominal em todo o Brasil, sendo 11% delas procedimentos de urgência, segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Hérnia com dados do DataSUS.
Em 2023, essa proporção chegou a 13,9%. São dezenas de milhares de casos por ano que chegaram à sala de cirurgia em situação de emergência, boa parte deles evitável com tratamento no momento certo.
Na Serra Gaúcha, onde a atividade industrial exige esforço físico contínuo e o trabalho com cargas pesadas é rotina em fábricas, metalúrgicas e no setor vinícola, a hérnia abdominal tem contexto específico.
O trabalhador que levanta peso todos os dias está entre os perfis de maior risco, e frequentemente é o que mais demora a tratar, justamente pelo receio do afastamento.
O que é uma hérnia abdominal e por que ela não some sozinha
A hérnia é uma abertura na musculatura abdominal que permite a passagem de uma porção de órgão, geralmente o intestino, ou de gordura através desse espaço. Ela ocorre com maior frequência em regiões de fragilidade anatômica: a virilha (hérnia inguinal), o umbigo (hérnia umbilical), a região logo acima do umbigo (hérnia epigástrica) e o local de incisão de cirurgias anteriores (hérnia incisional).
A Sociedade Brasileira de Hérnia estima que a condição afete entre 20% e 25% dos adultos brasileiros, o equivalente a cerca de 28 milhões de pessoas. A hérnia inguinal, que aparece na virilha, representa 75% de todos os casos. Vinte por cento dos homens adultos vão apresentá-la em algum momento da vida, assim como 3% das mulheres.
O ponto central que muitos pacientes ignoram: a hérnia não regride. Não existe medicamento, exercício ou fisioterapia capaz de fechar a abertura na parede muscular. Sem intervenção cirúrgica, a tendência natural é que o defeito aumente, os sintomas piorem e o risco de complicações graves cresça progressivamente.
Quando a hérnia vira emergência: encarceramento e estrangulamento
A hérnia não complicada costuma ser tolerável. O paciente convive com a saliência, adapta movimentos, evita esforços que pioram a dor. O problema aparece quando o conteúdo herniado, geralmente uma alça intestinal, fica preso na abertura muscular e não consegue voltar ao lugar. Isso é o encarceramento.
No encarceramento, a alça fica imobilizada mas ainda tem circulação. A dor se intensifica, o abdome pode distender e o intestino para de funcionar. Se a circulação for interrompida, o quadro evolui para estrangulamento, condição em que o tecido começa a morrer por falta de irrigação sanguínea.
“O estrangulamento exige cirurgia de emergência imediata. Sem intervenção, pode causar gangrena intestinal, peritonite e risco de vida”, alerta Dr. Thiago Tredicci, médico gastroenterológico com atendimento em Goiânia.
A diferença prática entre tratar uma hérnia de forma eletiva e operar em emergência é significativa para o paciente. Na cirurgia programada, o procedimento é realizado com o paciente preparado, em condições clínicas controladas, com anestesia adequada e técnica minimamente invasiva quando possível.
Na emergência, muitas vezes a laparoscopia não é viável, o intestino pode precisar ser ressecado e a recuperação é mais longa e mais difícil.
O impacto no trabalho: 28 mil afastamentos em um único ano
Em 2023, a hérnia inguinal figurou entre as dez doenças que mais afastaram trabalhadores no Brasil, segundo dados do Ministério da Previdência Social. Foram 28 mil afastamentos registrados no ano, posicionando a condição como a oitava maior causa de benefício por incapacidade temporária no país.
O dado revela uma contradição: boa parte desses trabalhadores provavelmente adiou o tratamento justamente para não se afastar. A hérnia doía, mas o medo de perder dias de trabalho pesava mais. O resultado foi o oposto: a demora transformou um procedimento de curta recuperação numa complicação que exigiu afastamento mais longo.
Com a videolaparoscopia e a cirurgia robótica disponíveis atualmente, o reparo eletivo de uma hérnia inguinal permite alta hospitalar no mesmo dia ou no dia seguinte, com retorno às atividades leves em poucos dias e às atividades com esforço físico em três a quatro semanas.
O tempo de recuperação numa cirurgia de urgência por estrangulamento, com ressecção intestinal, pode chegar a semanas de internação.
Quem trata hérnia abdominal: o papel do cirurgião digestivo
A hérnia abdominal pode ser tratada por cirurgiões gerais, cirurgiões do aparelho digestivo e coloproctologistas, desde que tenham experiência específica com cirurgia da parede abdominal.
Para hérnias de maior complexidade, como as incisionais volumosas, as recidivadas após cirurgia anterior ou as associadas a outras doenças abdominais, a experiência do cirurgião e o volume de casos realizados são critérios que fazem diferença no resultado.
Pacientes que buscam um cirurgião do aparelho digestivo para avaliação de hérnia devem verificar se o profissional atua com técnicas minimamente invasivas e se tem estrutura para o acompanhamento pós-operatório.
A indicação cirúrgica é individualizada: leva em conta o tipo de hérnia, o tamanho do defeito, a idade e as condições clínicas do paciente e o impacto da condição na vida diária.
Hérnias pequenas e assintomáticas em pacientes idosos com risco cirúrgico elevado podem ter a cirurgia postergada com acompanhamento.
Nos demais casos, a tendência atual na literatura médica é de indicação cirúrgica mais precoce, justamente para evitar que a progressão natural da doença leve ao encarceramento.
Tipos de hérnia: diferenças que definem o tratamento
A hérnia inguinal é a mais comum e acomete principalmente homens. Aparece como uma saliência na virilha, com dor que piora ao esforço. A técnica cirúrgica mais utilizada é o reparo com tela, material sintético colocado para reforçar a parede muscular, que reduziu drasticamente as taxas de recidiva em relação às técnicas antigas sem tela.
A hérnia umbilical afeta cerca de 8% dos adultos em geral. Em muitos casos permanece assintomática por anos, mas pode encarcerar com mais facilidade do que a inguinal, especialmente em mulheres com histórico de gestações múltiplas ou em pacientes obesos.
A hérnia incisional, que surge na cicatriz de cirurgias anteriores, é tecnicamente a mais complexa: o defeito pode ser grande, a musculatura ao redor costuma estar enfraquecida e as taxas de recidiva são mais altas sem técnica adequada.
Em todos os tipos, o princípio é o mesmo: a abertura muscular não fecha sem intervenção. O que muda é a urgência da indicação, a técnica escolhida e o material utilizado. Por isso, a avaliação com um especialista é o único caminho para determinar o momento certo de operar.
Como avaliar o momento certo para a cirurgia
A decisão de operar considera fatores que variam de paciente para paciente. Sintomas que pioram progressivamente, hérnia que aumentou de tamanho nos últimos meses, episódios de dor intensa que exigiram repouso forçado ou dificuldade de reduzir manualmente a saliência são sinais de que a indicação cirúrgica precisa ser avaliada com critério.
Quem quiser orientação de um médico especialista em estômago e doenças abdominais deve considerar que a consulta cirúrgica não significa necessariamente operar de imediato.
O especialista avalia o caso, indica exames de imagem quando necessário, como ultrassonografia ou tomografia da parede abdominal, e define, junto ao paciente, a melhor estratégia.
Em muitos casos, o simples diagnóstico confirma que a hérnia ainda pode ser acompanhada; em outros, evidencia que a janela para uma cirurgia eletiva segura está se fechando.
O trabalhador que levanta peso, que opera máquinas ou que passa horas em pé durante o turno deve incluir a avaliação precoce entre os cuidados de saúde ocupacional.
Não porque a hérnia exija cirurgia imediata em todo caso, mas porque o diagnóstico no estágio correto é o que determina se o tratamento será simples ou complexo.
O que muda com o diagnóstico precoce
Tratar uma hérnia inguinal eletivamente, com videolaparoscopia, representa hoje um procedimento com alta no mesmo dia, dor pós-operatória controlada com analgesia simples e retorno gradual às atividades.
Tratar a mesma hérnia em emergência, após encarceramento com ressecção de alça intestinal, significa dias de internação, risco de complicações infecciosas, cicatriz maior e recuperação mais lenta.
A diferença entre os dois cenários não está na gravidade inicial da doença. Está no tempo entre o diagnóstico e o tratamento. Em 2024, o SUS gastou mais de R$ 406 milhões com cirurgias de hérnia.
Parte relevante desse custo está concentrada nos procedimentos de urgência, que são mais longos, mais caros e exigem mais estrutura hospitalar do que as cirurgias programadas.
Para o paciente individual, o cálculo é mais direto: uma saliência que incomoda na virilha ou no umbigo, que aparece ao esforço e some ao deitar, merece avaliação especializada.
Não porque seja urgente hoje, mas porque pode se tornar urgente amanhã, e a diferença entre os dois cenários está inteiramente no momento em que a consulta foi marcada.
