Em um período marcado por desafios climáticos extremos, debates globais sobre o tema e movimentos de inovação tecnológica, o agronegócio brasileiro, em especial, o gaúcho, começa a ocupar posições estratégicas e propositivas na construção de soluções que conectam produtores, governos, ciência e mercado.
COP30: Agronegócio no centro das discussões climáticas
Em 2025, a reportagem da Rádio Caxias acompanhou os desdobramentos da COP30, realizada em Belém (PA), destacando que a conferência assumiu rapidamente um ritmo intenso de debates. Na ocasião, o embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, disse que o agronegócio brasileiro tinha papel central nas negociações sobre clima e meio ambiente. Em entrevista para a emissora, ele ressaltou que, embora governos negociassem metas e compromissos, “quem implanta cada uma dessas ações é o setor produtivo”.
Essa visão coloca o setor rural — responsável por boa parte da economia nacional — como ator fundamental na transição para práticas mais sustentáveis, com protagonismo nas soluções climáticas.
Crise climática e proteção no campo: seguro rural em discussão no RS
No Rio Grande do Sul, as consequências de eventos climáticos severos impulsionaram um debate urgente sobre seguro rural. Após enchentes e secas que deixaram prejuízos bilionários, líderes do setor, produtores e autoridades buscam maneiras de ampliar a cobertura e reorganizar o sistema de proteção financeira.
O presidente do Conselho Diretor da Confederação Nacional das Seguradoras, Roberto Santos, afirmou que a projeção é expandir a cobertura de seguros agrícolas em cerca de 20% até 2030, motivada pela maior ocorrência de eventos extremos.
No campo político, o deputado federal Afonso Hamm (PP-RS) convocou o ministro da Agricultura para prestar esclarecimentos sobre o bloqueio de recursos do programa federal de subvenção ao prêmio do seguro rural, apontando que a falta de apoio institucional agrava a crise e pressiona financeiramente os produtores gaúchos.
Em Caxias do Sul, o secretário municipal da Agricultura, Valmir Susin, destacou que a ausência de um seguro agrícola universalizado prejudica a recuperação de lavouras e propriedades, principalmente, após eventos extremos, gerando impacto direto na oferta de alimentos locais e gerando o aumento de preços.
O secretário estadual da Agricultura do RS, Giovani Feltes, defendeu a criação de um fundo próprio para reduzir custos e atrair seguradoras ao mercado gaúcho, destacando a necessidade de políticas públicas que reduzam juros e viabilizem o acesso ao crédito rural.
Inteligência climática: dados gratuitos a serviço do produtor
Em Caxias do Sul, um projeto inovador de inteligência climática foi lançado com a proposta de fornecer dados meteorológicos gratuitos para agricultores, cooperativas e órgãos públicos.
A iniciativa, articulada pela Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Caxias (CIC Caxias), prevê a instalação de estações meteorológicas distribuídas estrategicamente no município, com sensores que capturam temperatura, umidade, pluviometria, vento e outros parâmetros em tempo real — com acesso público.
A diretora de agronegócios da CIC Caxias, Gabriela Guazelli, destacou o caráter colaborativo do projeto e a importância de capacitar produtores para utilizar os dados de forma estratégica.
O cofundador da startup responsável pela tecnologia, Mario Apollo, reforçou que o monitoramento climático em tempo real é um passo essencial para reduzir riscos de perdas e aprimorar a tomada de decisões no campo.
ESG: Sustentabilidade como estratégia de mercado
Na perspectiva econômica e de mercado, eventos empresariais na Serra Gaúcha reforçam que o agronegócio precisa incorporar a agenda ESG (Ambiental, Social e Governança) como parte integrante das estratégias de negócios.
O especialista em ESG e sustentabilidade Luiz Goi, em palestra na Reunião-almoço da CIC Caxias, ressaltou que o conceito não deve ser visto apenas como modismo, mas como resposta a riscos reais enfrentados por empresas em um mundo volátil. Ele enfatizou ainda que o agronegócio brasileiro — embora tenha um enorme potencial — ainda precisa se reconhecer como protagonista em práticas sustentáveis.
Infraestrutura e apoio governamental ao agro gaúcho
No cenário político estadual, o governador Eduardo Leite detalhou investimentos que impactam diretamente a competitividade do agronegócio no Rio Grande do Sul.
Entre as iniciativas, ele destacou o avanço no Aeroporto Regional de Vila Oliva e as obras de recuperação da Rota do Sol, com impacto logístico para escoamento da produção. Leite explicou que o governo estadual assumiu a responsabilidade pelo acesso rodoviário ao aeroporto, o que é considerado estratégico para atrair investimentos federais e fortalecer a malha logística regional.
No âmbito rural, o governador do RS reforçou o compromisso com o programa Operação Terra Forte, que prevê apoio de até R$ 30 mil por propriedade familiar para recuperação de solos, compra de insumos e assistência técnica via Emater, beneficiando cerca de 10 mil famílias.
Conectando perspectivas para um futuro resiliente
As múltiplas frentes — do diálogo internacional nas conferências climáticas às demandas por políticas públicas efetivas, passando pela adoção de tecnologia e inovação nos sistemas de produção — mostram que o agronegócio brasileiro está em um processo de integração sistêmica e estratégica.
Mais do que produzir alimentos, o setor busca construir pontes entre conhecimento climático, proteção econômica, infraestrutura e competitividade de mercado, numa agenda que tem se consolidado sob o lema do “Agro Conecta”, e que propõe conectar pessoas, dados, políticas e tecnologias para enfrentar riscos e ampliar oportunidades no campo e além dele.
