Mais de três décadas após a criação da Lei de Cotas, pessoas com deficiência ainda encontram obstáculos para avançar profissionalmente no mercado de trabalho brasileiro. Embora a legislação tenha ampliado o acesso ao emprego formal, os dados indicam que a inclusão ainda não se traduz em oportunidades proporcionais de crescimento e ocupação de cargos de liderança.
Levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), com base na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), mostra que apenas uma em cada 29 pessoas com deficiência com vínculo formal de emprego ocupa uma função de direção ou gerência.
O mesmo levantamento aponta que somente 23% das empresas cumprem integralmente os percentuais previstos na legislação. A Lei nº 8.213, de 1991, estabelece que empresas com 100 ou mais empregados devem reservar de 2% a 5% dos postos de trabalho para pessoas com deficiência.
Apesar da legislação, trabalhadores com deficiência representam apenas 1,27% dos empregos formais no país. Dados do Censo 2022 indicam que cerca de 14 milhões de brasileiros se declaram pessoas com deficiência. Em 2025, mais de 4,1 mil empresas foram autuadas pelo Ministério do Trabalho e Emprego por descumprimento da Lei de Cotas.
Os números evidenciam que o desafio da inclusão não termina na contratação. A permanência, a qualificação e a possibilidade de promoção também dependem de acessibilidade, políticas de desenvolvimento profissional e preparação das lideranças.
Para Denise Dalmece, analista de Diversidade e Inclusão do Grupo Marista e pessoa com deficiência, as empresas precisam superar a lógica de contratar o profissional com deficiência apenas para cumprir a legislação.
Segundo ela, é necessário estabelecer planos de carreira e de desenvolvimento individual, com incentivo à formação e à especialização. A profissional afirma que, quando o trabalhador identifica possibilidades de crescimento e reconhecimento dentro da organização, há mais condições para que ele construa uma trajetória profissional de longo prazo.
Denise também aponta o capacitismo como uma das principais barreiras à ascensão profissional. De acordo com a especialista, estereótipos sobre a capacidade das pessoas com deficiência podem influenciar decisões de gestores e limitar a distribuição de tarefas e responsabilidades.
Na prática, um profissional pode permanecer durante anos na mesma função porque a liderança não identifica seu potencial para assumir novas responsabilidades. Para Denise, a mudança exige o enfrentamento de vieses e a preparação das equipes para reconhecer as competências dos trabalhadores com deficiência.
A acessibilidade também permanece como um desafio. A especialista destaca que a inclusão depende de medidas que vão desde infraestrutura adequada até tecnologias assistivas e condições seguras de deslocamento dentro do ambiente de trabalho.
Outro ponto levantado é a necessidade de sensibilização das equipes e das lideranças para identificar e evitar comportamentos e expressões capacitistas incorporados ao cotidiano.
O debate ganha destaque durante o Setembro Verde, período dedicado à conscientização sobre os direitos e a inclusão das pessoas com deficiência. Para além do cumprimento das cotas legais, a discussão envolve a criação de condições para que esses profissionais tenham acesso à qualificação, ao reconhecimento e às mesmas possibilidades de desenvolvimento e ascensão na carreira.





