A rotina familiar, marcada por deixar a pessoa idosa pela manhã e buscá-la ao fim do dia, pode fazer com que o Centro Dia seja entendido como uma espécie de “creche para idosos”. Mas, ao conhecer de perto o trabalho realizado no Centro Dia Paz e Bem, em Caxias do Sul, essa percepção começa a mudar.
O envelhecimento da população brasileira amplia também a necessidade de serviços voltados à pessoa idosa. Hoje, são mais de 32 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais. Em Caxias do Sul, o último Censo contabilizou cerca de 84 mil idosos. É nesse cenário que o Centro Dia Paz e Bem atua. O serviço, localizado no bairro Salgado Filho, atende pessoas com 60 anos ou mais que apresentam algum grau de dependência e estão em situação de risco ou vulnerabilidade social. Cerca de 30 idosos passam pelo espaço diariamente, de segunda a sexta-feira. Eles podem permanecer pela manhã, à tarde ou nos dois turnos, conforme a necessidade de cada caso.
Mais do que oferecer um lugar para passar o dia, o Centro Dia desenvolve uma rotina pensada para estimular a convivência, a autonomia e a participação dos idosos.Pintura, recreação, contação de histórias, horta, culinária e o tradicional bailinho das sextas-feiras fazem parte dessa rotina. Há ainda três refeições oferecidas ao longo do dia. A coordenadora do Centro Dia Paz e Bem, Tailine Garcia, explica como esse trabalho é organizado.

Para muitos idosos, a adaptação não acontece de imediato. Alguns chegam acreditando que não vão mais voltar para casa. É com a convivência e a construção de vínculos que essa compreensão muda.
Grande parte dos idosos atendidos atualmente tem algum tipo de demência. Por isso, as atividades são adaptadas às limitações e às possibilidades de cada pessoa. O objetivo é garantir que todos possam participar e, principalmente, continuar exercitando aquilo que ainda conseguem fazer.



E nessa convivência diária, os vínculos ultrapassam as atividades programadas. É o que acontece com dona Sebastiana. Ela faz crochê, conversa e costuma passar parte do dia na sala da coordenadora, compartilhando histórias. No começo, havia resistência em permanecer no Centro Dia. Hoje, a rotina já faz parte da vida dela e de um contato maior com Tailine.

Esse vínculo também representa um dos objetivos do serviço que é considerado de passagem, proporcionando suporte ao idoso sem romper os laços com a família.
Mas o Centro Dia não é uma instituição de longa permanência. E também não funciona da mesma forma que um Serviço de Convivência. A diferença entre esses serviços está justamente no perfil do atendimento e no grau de necessidade de cada pessoa. A diretora de Proteção Social Especial de Média Complexidade da Secretaria de Assistência Social e Cidadania, Cristiane Oliboni, explica.

Para chegar ao Centro Dia, o idoso passa por uma avaliação da rede de assistência social. O encaminhamento também pode partir da saúde, pelas Unidades Básicas. Conforme a diretora, depois da avaliação e da regulação da vaga, é realizada uma entrevista antes do ingresso no serviço. Atualmente, o município destina cerca de R$650 mil mensais para a parceria com a Associação Mão Amiga. Os recursos são utilizados principalmente na manutenção da equipe e dos serviços necessários ao atendimento.
A procura, no entanto, já é maior do que o número de vagas disponíveis. Cerca de 14 pessoas aguardam atualmente por uma vaga no Centro Dia para pessoas idosas e também no Centro Dia para pessoas com deficiência.
A permanência no serviço também não é definitiva. Ela acompanha a realidade de cada família. Quando a situação melhora e os cuidados podem ser reassumidos pelos familiares, o idoso pode ser desligado. Se houver agravamento, o encaminhamento pode ser feito para outro serviço mais adequado.



E o cuidado não termina quando o idoso deixa o Centro Dia. As famílias também são acompanhadas pela rede de assistência social. Esse acompanhamento pode incluir encontros com a equipe, visitas domiciliares e atendimento de técnicos.
E quando o idoso não consegue chegar até um serviço, o cuidado pode mudar de endereço. O acompanhamento domiciliar atende pessoas que apresentam algum grau de dependência e estão em situação de risco, mas não conseguem acessar os serviços de convivência ou o próprio Centro Dia. Nesses casos, a equipe vai até a casa da família.
Para conhecer o serviço do Centro Dia, a família pode procurar a rede de assistência social ou conversar com a equipe da UBS onde o idoso já é acompanhado. Também é possível buscar orientação no CRAS do território. Conforme Cristiane, a proposta vai além de oferecer cuidado durante algumas horas do dia. É criar possibilidades para que a pessoa idosa continue participando, convivendo e sendo reconhecida.
Talvez seja justamente aí que esteja à maior diferença entre a ideia que muitas pessoas têm de um Centro Dia e aquilo que acontece, de fato, dentro dele. Não é uma creche. Não é uma instituição onde a velhice é deixada para trás. É um espaço de cuidado, de encontro e de construção de autonomia. Por algumas horas, o idoso encontra novas atividades, novas amizades e novos motivos para participar. E, ao fim do dia, volta para casa levando consigo algo que não cabe em uma rotina de horários: a certeza de que a sua história continua tendo espaço, voz e valor.






