Antes dos complexos de cinema em shopping centers e das plataformas de streaming, assistir a um filme em Caxias do Sul significava ir ao centro ou algum bairro da cidade e ocupar uma das grandes salas que faziam parte da paisagem urbana.
Cine Ópera, Imperial, Real, Central, Guarani, Veneto e Royal estão entre os cinemas que desapareceram fisicamente, mas permanecem nas lembranças de quem frequentou as sessões, trabalhou nos bastidores ou acompanhou a programação pelo rádio.

A relação entre cinema e rádio também faz parte dessa história. Em 2026, quando a Rádio Caxias completa 80 anos, o resgate das antigas salas revela uma época em que a emissora ajudava a informar a população sobre os filmes em cartaz e também promovia eventos nesses espaços.
O pesquisador e documentarista Juliano Flores lembra que a programação cinematográfica era divulgada pela Rádio Caxias, especialmente no Jornal do Meio-Dia. A emissora também esteve presente em eventos realizados no Cine Ópera e no Real Cine, em São Pelegrino, e no Imperial, que recebeu, entre outras atividades, programas voltados ao público infantil, como o Clube da Estrelinha.
A relação entre a emissora e o cinema chegou também à produção regional. Em 1995, a Rádio Caxias acompanhou a pré-estreia de “O Quatrilho”, no Imperial. O filme de Fábio Barreto, baseado no romance de José Clemente Pozenato, foi lançado no ano seguinte e concorreu ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. A cobertura da emissora chegou até a cerimônia em Los Angeles.

Mas a história das antigas salas começa muito antes.
E quem viveu parte dessa rotina foi o operador cinematográfico Jones Paulo Rodrigues da Silva. Aos 14 anos, em 1966, ele começou a trabalhar em um cinema. A primeira função era rebobinar os filmes. Observando os operadores, aprendeu a fazer a projeção.
Jones trabalhou durante dois anos no Cine Ópera e outros 15 anos no Imperial. Hoje, atua na Sala de Cinema Ulysses Geremia, no Centro de Cultura Ordovás. São cerca de 42 anos ligados à atividade.

Nos antigos equipamentos, os filmes eram divididos em rolos e exibidos por meio de dois projetores. O operador precisava identificar o momento exato da troca entre os aparelhos para que a sessão não fosse interrompida.
A tecnologia mudou o trabalho, mas algumas lembranças permanecem. No Imperial, Jones conta que chegou a aumentar propositalmente o volume durante determinadas cenas de filmes de terror para provocar sustos na plateia. Outra recordação está ligada ao filme chinês “A Árvore do Amor“. Ele se emocionou durante a primeira sessão e, ao acender as luzes, percebeu que boa parte do público também estava chorando.
Para entender o papel dos cinemas na sociedade daquela época, a historiadora Kênia Pozenato recorre à pesquisa. Coautora, com Loraine Slomp Giron, do livro “Cinemas: lembranças“, publicado em 2007, ela estudou as salas de Caxias do Sul e de municípios da antiga região de colonização italiana.

A pesquisa nasceu de um trabalho sobre a história da imprensa regional. Durante as entrevistas, os pesquisadores perceberam que os relatos sobre os jornais frequentemente também levavam ao rádio e ao cinema.
Kênia explica que as salas não eram utilizadas apenas para a exibição de filmes. Em Caxias, também recebiam peças de teatro, apresentações musicais e outros eventos. Eram espaços de lazer, convivência e encontro.
Frequentar o cinema fazia parte da rotina da população. A programação influenciava comportamentos, moda e costumes, especialmente pela presença de produções estrangeiras. Para muitos jovens, o passeio pelo centro e a ida a uma sessão também integravam a rotina de namoro.
Essa experiência coletiva é lembrada pela jornalista Biba Coelho, que durante anos atuou como crítica de cinema em Caxias do Sul e acompanhou a programação das antigas salas.

Segundo ela, uma das principais diferenças em relação ao modelo atual estava justamente na participação do público. As salas lotadas reagiam às cenas, riam, aplaudiam e acompanhavam os filmes de forma mais intensa.
Biba também acompanhou uma fase de tentativa de renovação da programação do Imperial. Nos anos 1990, atuou como curadora da sala, buscando levar filmes que estavam fora do circuito comercial. A proposta, porém, enfrentava um problema: a baixa procura. Em uma sala com capacidade para cerca de 600 pessoas, algumas sessões reuniam apenas cinco ou seis espectadores.
A mudança no comportamento do público ajuda a explicar parte do processo que levou ao desaparecimento dos cinemas de rua. A popularização da televisão, seguida pelo videocassete, DVD, videoclubes e, mais tarde, pelas plataformas digitais, ampliou as possibilidades de assistir a filmes fora das salas. Mudanças urbanas, questões de segurança e dificuldades de deslocamento também contribuíram para a transformação.
O professor da Universidade de Caxias do Sul e produtor audiovisual Lissandro Stallivieri viveu esse período como espectador. Nas décadas de 1970 e 1980, frequentava cinemas de rua como o Imperial e o Cine Real, em São Pelegrino.

Anos mais tarde, voltou a uma antiga sala para produzir o curta-metragem “Al cinema“, gravado no extinto cinema de Galópolis. O filme, falado em talian, recupera as lembranças de infância de um ator italiano e a relação daquela geração com as sessões de cinema.
Para Lissandro, os antigos cinemas representam tanto patrimônio físico quanto memória coletiva. Os prédios podem desaparecer, mas as experiências permanecem nos relatos de quem viveu aquele período.
Foi também com o objetivo de preservar essas lembranças que o documentarista Emílio Caio Ferraço produziu “Efeito Dominó“, em parceria com Leonardo Vivan. O documentário tem cerca de 20 minutos, mas foi construído a partir de aproximadamente 57 horas de entrevistas e materiais.

Ferraço acompanhou o encerramento de várias salas nas décadas de 1980 e 1990. Entre elas estava o Cine Ópera, que tinha capacidade para cerca de 1,2 mil pessoas. Ele esteve na última sessão, em 1990, quando foi exibido “Ghost — Do Outro Lado da Vida“. Segundo o documentarista, uma fila chegou a contornar o quarteirão.
A trajetória do Cine Ópera também é lembrada pelo gestor cultural Robinson Cabral. O prédio teve origem no Teatro Apolo, inaugurado em 1921, com capacidade para aproximadamente 1,8 mil pessoas. Ao longo de sua história, o espaço recebeu diferentes atividades culturais e se tornou uma referência para a cidade.
Robinson também chama atenção para o fato de que a história desses espaços não se resume às sessões de cinema. As antigas salas integravam uma estrutura cultural mais ampla, que reunia teatro, música, eventos e diferentes formas de convivência.
O desaparecimento das salas de rua abriu espaço para outro modelo de negócio: os cinemas instalados dentro dos shopping centers. Em Caxias do Sul, um dos exemplos dessa transição é o Prataviera Shopping, que inaugurou sua sala de cinema em 1993, junto com o empreendimento.

João Prataviera Neto, gerente do shopping e neto de um dos fundadores, explica que a proposta fazia parte de uma mudança no próprio modelo comercial. O cinema passou a integrar um conjunto de serviços e opções de lazer, ao lado de lojas, alimentação e estacionamento.

A estrutura também respondia a novas necessidades do público, como segurança, facilidade de acesso e proteção contra o frio e a chuva. O cinema deixava de ser um endereço isolado no centro para fazer parte de uma experiência de consumo mais ampla.
Hoje, o desafio é outro. Com o streaming, o público pode assistir a praticamente qualquer produção em casa. Por isso, as salas precisam oferecer uma experiência que não seja facilmente reproduzida fora delas. Tecnologia, qualidade de imagem e som, conforto e uma experiência coletiva passam a ser parte dessa disputa pela atenção do espectador.
A transformação, porém, não significa que a experiência coletiva tenha desaparecido por completo. Para Lissandro, a tecnologia modificou a forma de produzir e consumir audiovisual, mas não alterou os fundamentos da linguagem cinematográfica.
Para Biba, o que mudou de maneira mais evidente foi a relação do público com a sala. E, para Kênia, permanece a dimensão social que os cinemas tiveram na formação cultural das cidades.

Os antigos cinemas também levantam uma discussão sobre preservação. Emílio Ferraço considera que parte desses espaços poderia ter sido mantida como patrimônio cultural. Robinson Cabral, por sua vez, resgata a trajetória do Cine Ópera justamente para evitar que a história desapareça junto com os prédios.
Hoje, os endereços mudaram. Alguns prédios foram demolidos, outros ganharam novas funções e alguns desapareceram completamente da paisagem urbana. Mas permanecem os ingressos guardados por antigos operadores, as fotografias, os livros, os documentários e, principalmente, as histórias de quem esteve dentro dessas salas.







E entre essas memórias está também a presença da Rádio Caxias. Durante décadas, a emissora anunciou os filmes em cartaz, acompanhou estreias, promoveu eventos e levou informações sobre cinema aos ouvintes, como explica o operador de áudio, Claudio Freitas.
A história dos antigos cinemas mostra, assim, uma transformação que vai além da maneira de assistir a um filme. Ela revela mudanças nos hábitos culturais, nas formas de convivência e na própria organização da cidade.

Ao completar 80 anos, a Rádio Caxias também revisita esse percurso. Uma história construída em diferentes espaços e por diferentes gerações, em que rádio e cinema, por muito tempo, fizeram parte da mesma rotina cultural de Caxias do Sul.








Os cinemas de rua desapareceram da paisagem. Mas continuam em cartaz na memória de quem viveu essa história.



