“Quando eu resolvi comunicar aos meus irmãos, a minha decisão de morar aqui, me chamaram de louca “, Gentile Vessaro Sukarski.
A frase de Gentile Vezzaro Sucharski,, professora aposentada de 87 anos, ecoa pelos corredores do Recanto da Compaixão Frei Salvador como uma síntese silenciosa do que o Brasil começa a compreender: envelhecer é parte inevitável da vida — e talvez o maior desafio social do presente.
Ao lado dela, outras histórias resistem ao tempo.
Aos 80 anos, Serafina Rodrigues de Andrade fala da felicidade encontrada nas pequenas rotinas do cotidiano. Moradora de Caxias do Sul há quatro décadas, ela conta que ainda escreve, lê e mantém hábitos simples que fazem diferença na qualidade de vida. “Eu gosto de tomar banho bem cedo, para aproveitar o dia”, resume.
Já Iléa Pazini, de 83 anos, revive as lembranças do trabalho duro no campo e da vida simples do interior. Entre memórias de plantações e paisagens, ela recorda os tempos em que pintava quadros e preservava objetos que marcaram sua trajetória.
Silvestre Brandalize, ex-contador, de 86 anos, resume sua filosofia de vida em poucas palavras: “Sempre cuidei da saúde, nunca fumei, nunca bebi e gosto de viver fazendo o bem.”
Aos 90 anos, Maria Lúcia Giacobbo Pretto carrega na memória e na carne a marca de graves cirurgias e doenças vencidas ao longo da vida. Entre tratamentos contra câncer e internações, encontrou na fé o apoio necessário para seguir em frente.
Rotina de cuidado e acolhimento

No Recanto da Compaixão Frei Salvador, em Caxias do Sul, o envelhecimento ganha nomes, rostos e histórias. Atualmente, a instituição acolhe 94 moradores, muitos convivendo com Alzheimer, Parkinson e outras formas de demência.
Entre enfermeiros, psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas, assistentes sociais e voluntários, a rotina é construída diariamente a partir do cuidado, da escuta e da preservação da dignidade dos idosos.
Segundo a coordenadora operacional do espaço, Daniela Dallegrave Santos, o sentimento de pertencimento é fundamental para a qualidade de vida dos residentes. “Eles precisam conversar, precisam se sentir seguros”, afirma.
Ela destaca ainda novos projetos desenvolvidos em parceria com a Universidade de Caxias do Sul, envolvendo pesquisa, formação e atividades ligadas ao curso de Educação Física.
A fisioterapeuta Luziane Mendes propõe um olhar mais humano sobre as instituições de longa permanência. Para ela, a institucionalização não deve ser automaticamente associada ao abandono familiar.
“Hoje a instituição oferece assistência especializada. Existe ainda uma cultura no Brasil de que institucionalizar é abandonar, mas isso vem mudando”, explica.
A psicóloga voluntária Sirlei Mazocchi destaca que envelhecer também significa lidar com ausências, medos e a necessidade de pertencimento. Especializada em neurociências e cuidados paliativos, ela defende uma abordagem centrada na humanização. “O mais importante é compreender a história de cada pessoa”, afirma.
Um país que envelhece rapidamente
O cenário observado dentro da instituição reflete uma transformação nacional. O Brasil envelhece em ritmo acelerado. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a expectativa de vida do brasileiro chegou a 76 anos e 6 meses. Em 1940, era de apenas 45 anos.
Em Caxias do Sul, a mudança já impacta diretamente a cidade. A população idosa, que era de 83 mil pessoas em 2022, já ultrapassa 90 mil habitantes e deve atingir cerca de 100 mil em 2026. Segundo a assistente social da Coordenadoria da Pessoa Idosa, Nicole Fiedler, a inversão da pirâmide etária já é realidade.
“Em pouco tempo teremos mais idosos do que jovens na cidade, especialmente aqui no Sul do Brasil”, explica.
O envelhecimento populacional modifica relações familiares, pressiona políticas públicas e reorganiza a estrutura social. No cenário político, cerca de 20% do eleitorado caxiense já possui mais de 70 anos. A informação é do chefe do cartório da 169ª Zona Eleitoral de Caxias do Sul, Edson Borowski. “São mais de 20 mil eleitores acima dos 70 anos e mais de 10 mil acima dos 80. E eles votam muito”, destaca.
O embaixador Francisco Roçal de Araújo alerta ainda para outro reflexo já perceptível: a queda da taxa de natalidade e os impactos no mercado de trabalho. “Países que tinham altas taxas de natalidade já começam a enfrentar redução populacional. Isso traz consequências econômicas importantes”, observa.
O desafio de envelhecer bem
Viver mais, no entanto, não significa necessariamente viver melhor. O médico e pesquisador Emílio Moriguchi afirma que o país ainda não está preparado para o envelhecimento acelerado da população. Segundo ele, no Rio Grande do Sul, oito em cada dez idosos já enfrentaram algum problema de saúde que exigiu atendimento institucional.
“Não somos mais um país jovem. Precisamos nos preparar para envelhecer, caso contrário vamos envelhecer mal”, alerta.
Na rotina diária, pequenos hábitos ajudam a preservar autonomia e independência. A fisioterapeuta Cacá Pegorini, por exemplo, reforça a importância da atividade física no envelhecimento saudável. “O movimento mantém músculos, reduz quedas e preserva a autonomia”, afirma.
O professor Williams Borelli aponta a educação e os estímulos cognitivos como ferramentas fundamentais de proteção contra demências. “Hoje sabemos que um em cada dois casos de demência pode ser evitado com o controle de fatores de risco”, explica. Entre esses fatores estão hipertensão, diabetes, colesterol alto, sedentarismo, perda auditiva e baixa escolaridade.
A neurologista Paula Gasperin lembra que doenças como Alzheimer afetam não apenas os pacientes, mas toda a estrutura familiar. “É uma doença que gera impactos emocionais, sociais e econômicos profundos”, ressalta.
Aos 83 anos, a jornalista Tânia Carvalho resume uma provocação direta ao preconceito etário.
“Envelhecer não é doença. É destino.”
Ela afirma que a sociedade ainda não está preparada para a longevidade conquistada nas últimas décadas. “Tem gente que pergunta: ‘Tu ainda trabalha?’. E eu respondo: estou ótima.”
No fim, talvez seja justamente essa a urgência do Brasil que envelhece: aprender a ouvir quem chegou até aqui. Porque os cabelos brancos não carregam apenas o peso da idade. Carregam memórias, experiências e vidas inteiras que ainda têm muito a ensinar.
“Envelhecer é inevitável. O que permanece como escolha coletiva é a forma como a sociedade decide cuidar daqueles que chegaram até aqui”, Noriana Behrend.
