Em meio às luzes da cidade e ao movimento apressado desta época do ano, marcado pelas festas, existe um Natal que acontece no silêncio e no afeto. Ele nasce quando pedidos sinceros encontram alguém disposto a ouvir. É nessa escuta que se revela a tradicional figura do Papai Noel, com sua barba branca, roupa vermelha e os braços, e ouvidos, bem abertos para receber os pequenos e até mesmo os adultos. Enquanto o Papai Noel escuta a voz dos sonhos, voluntários acolhem justamente esses pedidos e necessidades. E, juntos, mostram que o Natal tem inúmeras formas, e todas elas cabem no coração.
Dessa forma, dos pedidos que chegam até a figura natalina às iniciativas de voluntários e instituições, cada gesto compõe essa história, uma história que ninguém constrói sozinho. É nesse caminho compartilhado que a fantasia e a solidariedade caminham lado a lado.
E foi exatamente assim que começou a jornada de Edson Lazaretti, hoje com 57 anos, intérprete do bom velhinho há mais de uma década. Em 2014, ao organizar uma festa para uma escola no bairro Santa Fé, em Caxias do Sul, tudo estava pronto: presentes, brinquedos, comida. Faltava apenas o essencial: o Papai Noel. Sem ninguém para assumir o papel, Edson decidiu vestir a roupa vermelha e dar vida ao personagem. A barba, na época, era postiça, mas o gesto era verdadeiro.
A história, porém, vai além daquele primeiro improviso. Sem perceber, a magia do Natal sempre esteve presente na vida de Edson. Ao revisitar o passado, ele lembra que, aos 11 anos, já havia se vestido de Papai Noel, e até de gnomo, sem imaginar que aquele espírito natalino o acompanharia pela vida inteira. Uma jornada marcada por histórias que também ensinam Papai Noel a doar mais.
Na essência do Natal e do bom velhinho, os pedidos que Edson escutou ao longo dos anos são os mais distintos possíveis e revelam realidades que, muitas vezes, não vemos à nossa volta. Ele detalha pedidos que nem sempre cabem em uma caixa: o desejo por um simples panetone, um abraço apertado. Mas afirma que os pedidos mais marcantes são justamente os mais simples, e também os mais dolorosos. São histórias de crianças que pedem o fim das brigas dentro de casa, um retrato das necessidades que se escondem no afeto ausente e na rotina atravessada por dificuldades. A mesma família que, ele destaca, é quem deve construir a relação da criança com a magia do Natal.
E são justamente essas diferentes formas de solidariedade e entrega que sustentam a verdadeira essência do Natal. Na escuta atenta do bom velhinho, que recebe tantos pedidos, a história só se completa por meio de quem se dispõe a ajudar. Sobre isso, o Sonhar Acordado sabe bem como transformar vidas. Fundada dentro da Igreja Católica, a Organização Não Governamental (ONG) nasceu no México e, no Brasil, conta hoje com cinco núcleos. No Rio Grande do Sul, o núcleo de Caxias do Sul é o único em atividade. Entre as diversas ações realizadas pelo grupo no município, a Festa de Natal é a mais emblemática: todos os anos, aproximadamente 300 crianças da rede municipal participam do encontro, que reúne voluntários, atividades recreativas e, claro, a presença do Papai Noel.
A farmacêutica e integrante da coordenação da ONG, Bianca Fetter, de 31 anos, vive a rotina de quem entende que solidariedade não tem data. Há dez anos no projeto e três anos na coordenação, ela é uma das responsáveis por fazer com que cada detalhe da festa, e dos demais projetos, ganhe vida. Para além do Natal, durante todo o ano o cuidado permanece, com diversas outras ações realizadas pela ONG, como encontros mensais e atividades em datas comemorativas.
Em mais de uma década, estima-se que mais de cinco mil crianças tenham sido beneficiadas pelas ações da instituição. A seleção ocorre a partir de um convite enviado pela organização a escolas municipais de Caxias do Sul, especialmente as que apresentam crianças em vulnerabilidade social. A mobilização depende diretamente dos voluntários, no dia da festa, cada criança tem um voluntário exclusivo. A preparação começa entre junho e julho e envolve desde a busca por patrocínios até a organização de atividades, alimentação, transporte e formação dos participantes. No dia do evento, as crianças são buscadas nas escolas e recebem presentes padronizados.
Mas, para além das lembranças e das brincadeiras, o que elas mais pedem, segundo a coordenadora, é algo simples, atenção, o que se conecta diretamente aos pedidos que nem sempre cabem em caixas. Entre esforços e desafios, Bianca admite que o cansaço existe, mas nunca é maior do que o propósito. Ela ressalta que promover as ações transforma muito mais os próprios voluntários do que as crianças, de forma que se doar retorna em algo ainda maior para quem dedica tempo e amor.
Ao final dessa história sobre o Natal que se escuta e o Natal que se faz, Papai Noel e ONGs como o Sonhar Acordado caminham no mesmo compasso de amor. Bianca reforça que toda ajuda faz diferença, e não apenas nesta época, mas durante todo o ano, em mais uma Festa de Natal que já começa a ser planejada e contará, mais uma vez, com a colaboração da comunidade, que poderá contribuir com tempo e dedicação por meio do voluntariado ou de forma financeira. O contato pode ser feito pela página no Instagram @sonharcaxias.
Para o Papai Noel, mais do que ser essa figura carismática que acolhe tantos pedidos, a maior essência está na fraternidade e no gesto de acolher o próximo, sendo mais do que um símbolo: uma identidade voltada ao coração.
E, no fim, é essa mensagem que atravessa todas as histórias, dos pedidos que Edson escuta às mãos que os voluntários estendem, passando pelo trabalho silencioso de quem dedica tempo para transformar realidades. O Natal, afinal, não está apenas na data, nas luzes ou nos presentes: está no gesto e na escuta.







