O combate à LGBTfobia — discriminação, preconceito e violência contra pessoas LGBTQIAPN+ — permanece como um dos grandes desafios dos movimentos de direitos humanos no Brasil. Apesar de conquistas simbólicas e legais, a realidade cotidiana revela que a luta pela igualdade continua, exigindo ação concreta em múltiplas frentes.
Um retrato duro das violências contra LGBTQIAPN+
Dados recentes da Ouvidoria Nacional do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania mostram que, até setembro de 2025, foram registrados 36.443 casos de violência contra pessoas LGBTQIAPN+ em todo o país.
No Rio Grande do Sul, o cenário também é alarmante: o estado já computou mais de 1,4 mil denúncias em 2025. Entre os municípios mais afetados, está uma cidade do interior que concentra 124 denúncias — a segunda mais alta do Estado.
Para especialistas, esse dado revela a envergadura da crise. O professor de Direito da Faculdade Anhanguera, Antony Delorran, alerta: “o Estado precisa reconhecer que a violência contra pessoas trans e travestis não é exotismo, mas consequência de um sistema que naturaliza o ódio e a exclusão”. Ele aponta que, enquanto há delegacias especializadas para mulheres ou idosos, não existe — em escala necessária — um canal dedicado ao atendimento de vítimas LGBTQIAPN+, o que agrava a insegurança e a invisibilidade.
Nesse contexto, a LGBTfobia se expressa não apenas através de agressões físicas ou homicídios — embora esses existam — mas também por meio da exclusão social, do desemprego, da negação de direitos, da marginalização e do medo constante.
Lutando pelo direito de existir: ativismo, apoio e mobilização
Num cenário tão adverso, surgem — e resistem — iniciativas de enfrentamento que combinam acolhimento, visibilidade e defesa de direitos. Entre elas, destaca-se a atuação da ONG Construindo Igualdade.
A ONG promove desde 2003 uma série de ações: apoio jurídico para retificação de nome e gênero; assessoria a pessoas LGBTs em vulnerabilidade; projetos de inclusão social; cursos de capacitação; e mobilização cultural e política.
Cleo Araujo, voluntária e uma das líderes da ONG, explica por que essas iniciativas são vitais:
“Essa é uma data muito importante para reafirmar nossa luta por direitos e contra qualquer tipo de preconceito. Por isso estamos fazendo esse convite … tire sua bandeira do armário, coloque seu orgulho na janela.”
Para além de campanhas simbólicas, a ONG desenvolve ação concreta na promoção da inclusão social e da dignidade. Através do projeto “Emprega LGBT”, por exemplo, ela oferece gratuitamente elaboração de currículos e encaminhamento a empresas parceiras, buscando garantir oportunidade profissional a pessoas muitas vezes preteridas no mercado de trabalho.
Uma das beneficiárias, a educadora social trans Nicole Rosa, relata o impacto da ação:
“Para mim é muito importante ajudar outras pessoas LGBTs a conseguirem um emprego. Infelizmente, a transfobia é avassaladora…”
Esse tipo de apoio — jurídico, social e profissional — representa um exercício de cidadania e dignidade, que vai além da luta por visibilidade: propõe inclusão real e enfrentamento estruturado da discriminação.
Visibilidade e resistência: marchas, cultura e presença pública
A luta pela visibilidade também passa pelas ruas, pelas artes e pela ocupação de espaços públicos. Movimentos como as marchas pelo orgulho LGBTQIAPN+, eventos culturais e manifestações de apoio são parte essencial dessa resistência — porque afirmam existência, memória, direitos e humanidade.
Atos simbólicos, como a campanha de levantar bandeiras nas janelas (“tire sua bandeira do armário”), mobilizam aliados e ampliam o debate público. A ocupação de espaços culturais e simbólicos — carnaval, festas, festivais, com visibilidade LGBTQIAPN+ — ajuda a desconstruir estigmas, promover empatia e criar redes de apoio e pertencimento.
Essas iniciativas dialogam diretamente com os compromissos da sociedade com os direitos humanos, inclusão social e justiça — valores centrais dos Organização das Nações Unidas (ONU) e seus Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
O que falta: políticas públicas e institucionalização da proteção
Apesar dos esforços da sociedade civil, as respostas institucionais ainda são insuficientes. Faltam canais especializados de denúncia e acolhimento, delegacias ou centros de referência estruturados, políticas de inserção no trabalho e proteção à saúde da população LGBTQIAPN+.
O ativista Antony Delorran defende que combater a LGBTfobia passa por “educar a sociedade desde a escola”, além de garantir apoio jurídico, psicológico e social às vítimas — ações que precisam partir de Estado e instituições, para além do voluntariado.
Também é urgente que a discriminação deixe de ser tratada como questão isolada ou cultural — e passe a ser vista como violação de direitos humanos, dignidade e liberdade. A institucionalização de políticas de proteção, monitoramento, prevenção e promoção da igualdade é essencial.
Conquistas e a responsabilidade de transformar o amanhã
No Brasil, conquistas legais como o reconhecimento da união estável entre pessoas do mesmo sexo já existem há mais de uma década. Avanços simbólicos e institucionais mostram que a mudança é possível.
No entanto, enquanto a violência, o preconceito e a exclusão persistirem, a luta permanece. O enfrentamento à LGBTfobia requer — mais do que leis — compromisso social, empatia, educação e ação real.
As iniciativas de acolhimento, empoderamento e visibilidade mostram que existe caminho. Que existimos. Que resistimos. E que não abandonaremos nunca a luta por dignidade, liberdade e igualdade.
