Entre o cheiro da natureza, o som dos cascos trotando e a mansidão dos cavalos, um tipo diferente de terapia vem transformando a vida de crianças e adultos em Caxias do Sul. No Equocenter, a equoterapia integra profissionais, animais e o contato direto com a natureza para estimular ganhos motores, emocionais e sensoriais difíceis de alcançar em consultórios convencionais.
A equoterapia é um método terapêutico, reconhecido por diversos órgãos, como o Conselho Federal de Medicina e o de Fisioterapia e Terapia Ocupacional. É uma abordagem multidisciplinar que utiliza o cavalo para promover benefícios físicos, psicológicos e sociais aos praticantes. A médica veterinária e instrutora de equitação, Cláudia Comin, uma das responsáveis pelo trabalho, reforça que não se trata de lazer.
A escolha do cavalo começa pelo comportamento: animais calmos, dóceis e que aceitem contato. Em seguida, passam por um processo de dessensibilização para toques, sons, brinquedos e situações inesperadas, simulando as sessões. Só depois de aprovados nessa preparação progressiva, os cavalos começam a atuar. Com o tempo, eles distinguem o treinamento da função terapêutica se tornando verdadeiros equoterapeutas, conforme Cláudia.
Esse papel é explicado pela fisioterapeuta Priscila Boschetti, que trabalha com equoterapia há quase 15 anos. Ela destaca que o movimento tridimensional do cavalo — semelhante ao da marcha humana — é insubstituível. A cada passo do animal, a criança faz um ajuste postural para se manter alinhada, coloca Priscila.
Esse processo cria novas vias cerebrais, possibilitando que crianças com dificuldades motoras encontrem caminhos alternativos para se equilibrar e se mover. No Equocenter, as principais demandas vêm de crianças com transtorno do espectro autista (TEA), paralisia cerebral, síndromes raras, atrasos motores e questões sensoriais. As sessões começam com uma avaliação da condição e dos objetivos terapêuticos de cada um. A partir disso, são definidos os estímulos: postura, controle de tronco, exercícios com materiais ou apenas a montaria — que, por si só, já pode ser suficiente.

O ambiente ao ar livre enriquece estímulos sensoriais e de linguagem, tornando a terapia mais envolvente do que atendimentos tradicionais em clínicas fechadas, algo fundamental para reter a atenção das crianças. Cláudia salienta que há ainda ganhos emocionais e aumento da autoestima e coragem dos praticantes.
Outro ponto importante é o vínculo criado entre o praticante e o cavalo, que varia conforme cada patologia, mas costuma ser muito forte. Algumas crianças, especialmente com espectro autista, demoram a montar — às vezes semanas ou meses. Para fortalecer a relação, o centro mantém o mesmo cavalo para cada criança por longos períodos, fazendo trocas apenas quando estritamente necessário. Mesmo assim, os praticantes percebem rapidamente qualquer mudança e nem sempre aceitam outro animal, evidenciando a importância do vínculo.
Priscila cita o exemplo de Miguel, menino de 13 anos com paralisia cerebral, que é atendido pelo Equocenter há quase 3 anos. Ele ainda não tem o controle de tronco adequado e a equoterapia tem colaborado para a evolução de sua postura. Débora Dellazeri Théo, mãe de Miguel, destaca que a melhora do filho é evidente, apesar de ser um processo a longo prazo.
Os resultados da equoterapia costumam aparecer rapidamente. Priscila fala com alegria sobre o trabalho desenvolvido e a possibilidade de ajudar na evolução das crianças de forma leve e natural, incentivando sua autonomia.
Diferentemente de outros centros, o Equocenter trabalha com sessões de 45 minutos. São 30 minutos de montaria — tempo ideal definido pelas normas da Associação Nacional de Equoterapia (ANDE) — e mais 15 minutos de atividades de solo. Esse momento, segundo as terapeutas, é igualmente essencial. No chão, os praticantes caminham, alimentam o animal e fazem atividades funcionais. Essas ações reforçam a autonomia, vínculo afetivo e regulação emocional.
Cada sessão envolve três “profissionais”: o cavalo, o auxiliar-guia (responsável pelo manejo e condução do equino) e o terapeuta (sempre da área da saúde). Em alguns casos,conforme Cláudia, há também um auxiliar lateral. O trabalho integrado entre profissionais da saúde e instrutores de equitação garante a segurança e a eficácia terapêutica.

No campo institucional, porém, o desafio maior está no reconhecimento, Cláudia explica que a equoterapia ainda não faz parte da cobertura obrigatória da Agência Nacional de Saúde (ANS), o que impossibilita o credenciamento regular pelos planos de saúde. Alguns atendimentos ocorrem via decisões judiciais, mas o cenário tem se tornado mais restritivo. Para ampliar o acesso, o Equocenter mantém um projeto de apadrinhamento, no qual empresas ajudam a custear as sessões de crianças sem condições financeiras.
Apesar dos obstáculos, Cláudia salienta que a luta por maior visibilidade e reconhecimento da equoterapia seguirá. Ela acredita em avanços futuros, mas ressalta a necessidade de buscar a regulamentação, expansão de acesso e melhoria na formação de profissionais para consolidar a terapia como parte efetiva das políticas públicas de saúde.
O que se percebe no Equocenter é que, cada sessão é a soma de ciência, paciência e sensibilidade. Um trabalho em que profissionais se dedicam, crianças se superam e cavalos emprestam seu movimento para despertar novas possibilidades. Com passos firmes e movimentos que imitam a caminhada humana, os animais fazem muito mais do que levar um praticante. Eles carregam transformações, físicas e emocionais, para uma vida inteira.
