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Reportagem Especial | Combate à Violência contra Mulher: Direito de Ser, Viver e Existir

  • Noriana Behrend
  • 10/10/2025
Foto: Arquivo CNJ – https://www.cnj.jus.br/

Direito de ser. De viver. De existir. Palavras que parecem simples, mas que, para muitas mulheres, ainda são uma luta diária. Mesmo com leis reconhecidas internacionalmente, o Brasil segue entre os países mais violentos para as mulheres. Em Caxias do Sul, a Defensoria Pública, o Ministério Público e diversas instituições estão fortalecendo a rede de proteção — para romper o ciclo de agressões e garantir o direito à vida, à dignidade e à autonomia feminina.

Nos últimos dez anos, mais de 70 mil crianças ficaram órfãs no Brasil por causa de feminicídios. De acordo com o Mapa da Segurança Pública de 2025, quatro mulheres são assassinadas por dia no país — e, em sua maioria, dentro de casa.

“O Brasil tem uma das melhores leis do mundo, mas continua em quinto lugar no ranking global de feminicídios. Isso revela que o problema não é apenas jurídico — é cultural,” afirma a promotora de Justiça Coordenadora do Centro de Apoio Operacional de Enfrentamento à Violência contra a Mulher, Ivana Battaglin.

Em Caxias do Sul, a Defensoria Pública é muitas vezes o primeiro ponto de contato das mulheres com o Estado. O acolhimento e a escuta são o início da reconstrução.

“Garantir direitos não é apenas uma questão legal, mas uma questão de humanidade,” comenta a líder do Núcleo de Defesa da Mulher da Defensoria Pública, Liseane Hartman.

A cidade se prepara para receber a Casa da Mulher Brasileira, que vai reunir em um único espaço Defensoria Pública, Ministério Público, Judiciário e serviços de acolhimento. O terreno já foi definido na Zona Sul, e o edital de obras deve ser lançado até o final do ano.

Outra iniciativa importante é o Projeto Resgate, criado pela Associação dos Psicólogos do Nordeste Gaúcho. O programa oferece atendimento psicológico gratuito e rodas de conversa sobre autoestima e direitos.

Em 2024, foram 1.008 casos de violência doméstica, mas apenas 150 denúncias formais. A diferença entre os números mostra o quanto o medo e o silêncio ainda são barreiras reais.

“Muitas mulheres mortas por feminicídio nunca buscaram ajuda. A violência pode ser física, psicológica, moral, sexual ou patrimonial — e qualquer pessoa pode denunciar“, diz a advogada e titular da Coordenadoria da Mulher de Caxias, Fabrine Artioli dos Anjos e Souza

Foto: Banco de imagens – https://www.gov.br/

AÇÕES ESTADUAIS E DESAFIOS

O governo do Estado anunciou a criação de 14 novas Defensorias Públicas Especializadas no Atendimento à Vítima de Violência Doméstica e Feminicídio — e Caxias do Sul está entre as cidades contempladas. Mas, como lembra a promotora Ivana Battaglin, ainda há um longo caminho pela frente.

“Se continuarmos no ritmo atual, levaremos 150 anos para alcançar a igualdade de gênero e vencer a violência contra as mulheres,” afirma Ivana Battaglin.

Foto: https://www.andersonalbuquerque.com.br/

EDUCAÇÃO E CULTURA: O INÍCIO DA MUDANÇA

A raiz da violência é cultural. Meninos aprendem a não levar desaforo. Meninas, a suportar caladas.

“Precisamos falar de gênero nas escolas. Não é ideologia — é respeito,” comenta Ivana Battaglin.

A Lei Maria da Penha, que completou 19 anos em 2025, já prevê a educação de gênero. Reconhecida pela ONU como uma das três legislações mais eficazes do mundo, ela salvou vidas — mas a subnotificação ainda é alarmante: apenas uma em cada nove mulheres busca ajuda.

“A mulher que é convencida a deixar o emprego ou entregar o salário vive violência patrimonial. Ela começa sendo controlada, depois isolada — e, por fim, agredida,” explica a coordenadora do Centro de Apoio Operacional Criminal (CAOCRIM) e do Núcleo de Promoção de Apoio às Vítimas do MPRS, Alessandra Moura Bastian da Cunha.

Foto: https://condo.news/

REEDUCAÇÃO E PREVENÇÃO

Os grupos reflexivos de gênero, voltados à reeducação de homens agressores, mostram resultados. A reincidência entre os que participam é inferior a 5% — contra 70% entre os que não participam. E Caxias do Sul abriga a Central de Atendimento às Vítimas “Bem-Me-Quer”, a primeira do interior gaúcho.

“É um espaço humanizado, onde a vítima é acolhida com afeto e informação, não apenas como parte de um processo, ”explica a promotora, Cristina Schmitt Rosa.

Foto: https://www.agenciasp.sp.gov.br/

VIOLÊNCIA POLÍTICA E REPRESENTATIVIDADE

O enfrentamento à violência também chegou à política. Em 2024, as denúncias de violência política de gênero cresceram 484%.

“O que não tem nome, não existe. Agora, a violência política é crime — e as mulheres reconhecem que o que sofrem não é normal,” diz Ivana Battaglin.

A REDE QUE ACOLHE E TRANSFORMA

Além da violência doméstica, a Defensoria Pública também atua em casos de ausência de paternidade. Entre 2020 e 2025, mais de mil crianças foram registradas apenas com o nome da mãe em Caxias do Sul. A instituição garante o reconhecimento de paternidade e pensão alimentícia — assegurando o direito das mães e das crianças.

Mas, como resume Ivana Battaglin…

“Quando uma mulher é morta, é porque toda a rede falhou.”

SER, VIVER E EXISTIR

Você sabia que o Rio Grande do Sul acaba de dar um passo importante no combate à violência contra a mulher? Isso porque, o Ministério Público recebeu em 2025 o primeiro Encontro Estadual de Mulheres e Redes de Proteção, em Porto Alegre, reunindo equipes de prefeituras de todas as regiões do Estado. Quem explica é a titular da Secretaria Estadual da Mulher, Fábia Richter.

“Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo
Antes – agora – o que há de vir”

Entre os versos de Conceição Evaristo, as canções de Elza Soares e as batalhas diárias de milhões de brasileiras, um mesmo clamor ecoa: O direito de ser mulher é o direito de existir plenamente!

E, enquanto houver quem lute — nas ruas, nos tribunais, nas escolas e na arte — haverá esperança. Seja de um país menos violento. Mais justo. E tomara… Mais humano.

📞 Canais de denúncia e apoio

Defensoria Pública, Promotorias e Centrais de Atendimento às Vítimas

180 – Central de Atendimento à Mulher

190 – Polícia Militar

3218-6112 / WhatsApp (54) 98403-4144 – Centro de Referência da Mulher (CRM)

Noriana Behrend
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10/10/2025 - Atualizado em 17/11/2025 - 10:35

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